Para quem não conhece esse meu lado: sou adestradora de cães. Não sou profissional, obviamente, mas uma amadora empolgada. Já ministrei seminários, tive blog sobre isso, comunidade no Orkut, fui moderadora de fórum de discussão. Deixei de lado o adestramento para fazer jus ao diploma e à OAB, e confesso que muitas vezes pensei em fazer o caminho inverso.
A palavra “adestramento” desperta na maior parte das pessoas a imagem de cachorros policiais pulando por arcos de fogo, ou de poodles de circo andando sobre as duas patas e usando tutus. Sim, isso é adestramento também. Mas não só, nem principalmente.
Quando falo em adestramento de animais, falo da tentativa de estabelecer com eles uma comunicação. E vou usar aqui o exemplo dos cães, porque é o mais comum, inclusive para mim, mas vale para qualquer tipo de bicho – e essa generalização é importante.
Numa concepção mais tradicional de adestramento, a comunicação é via de mão única: o adestrador, ou o dono, o “líder”, comunica ao cão o que espera dele, e espera obediência imediata. Há instruções expressas para não “ceder” ao cão, e referências às tentativas dos bichos de “tomar a liderança”.
Foi com essa concepção que me iniciei no adestramento, cheia de preocupação em sempre ganhar as brincadeiras de cabo-de-guerra, comer primeiro, e não deixar o cachorro passar por uma porta na minha frente.
Era uma tensão constante, o tempo todo esperando uma transgressão, aquele momento em que a minha linda Labrador amarela iria se transformar numa golpista subversiva, para então poder puni-la de acordo. Rolar com ela no chão? Brincar de pega-pega? Não, não, arriscado demais. O próximo passo seriam rosnados, mordidas e um cão impondo suas regras.
Claro que não aguentei isso muito tempo. Só o que queria era ter um cachorro minimamente comportado, não estava a fim de milhões de regras para evitar que ela virasse um monstro. Não parecia razoável, nem necessário. Então, fui pesquisar alternativas.
[AVISO: a partir daqui, esse post contém sinais de epifania. Não me levem a mal, há momentos em que é difícil ser cínica*.]
O que encontrei foram pessoas que viam a relação entre homem e animal como parceria, não como conflito. O adestramento como canal de mão dupla, em que as necessidades e interesses do animal são igualmente importantes. Problemas de comportamento resolvidos com soluções que buscavam aumentar o bem-estar do bicho, ao invés de simplesmente criar sistemas de punições.
E aí as coisas começaram a fazer mais sentido. Passei a prestar atenção aos cães, às expressões corporais, aos hábitos, às reações. Observei as relações entre eles, a interação com o ambiente e comigo. E fui enxergando algo muito mais complexo do que uma simples e constante disputa de poder.
Minha cadela não estava buscando me derrotar ou me desafiar: estava buscando seus próprios interesses. Se eu oferecia a ela formas de obtê-los, ela aceitava. E o adestramento, então, deixou de ser uma forma de impor minha vontade, e passou a ser uma busca pelo denominador comum entre meu interesse, e o dela.
Os cães (e outros bichos não humanos) são o cúmulo da alteridade. Eles andam sobre quatro patas, têm corpo peludo, confiam no olfato mais do que na visão. O mundo deles é diferente do nosso, e ainda assim é possível nos comunicarmos e nos relacionarmos. Basta tolerância, afeto, aceitação das diferenças, busca dos pontos comuns. Sim, eu sei, nada disso é novidade.
O que o adestramento me ensinou é que não há receita mágica, nem nada de novo sob o sol.
*vale lembrar que o significado original de “cinismo” é “à maneira dos cães”




Publicado por Tatiana em abril 16, 2011 às 7:40 pm r r
Adorei saber mais um pouco da sua experiencia de vida com os cães. Muito linda! Bjs. Tati
Publicado por Deborah Leão em abril 20, 2011 às 9:03 pm r r
Obrigada, Tatiana =) Essa é uma parte importante da minha história, achei que valia a pena contar um pouquinho aqui, e falar do quanto isso me influenciou como pessoa. Beijos!
Publicado por Iara em abril 17, 2011 às 7:15 pm r r
Olha, de cachorros eu não entendo muito, mas passei pra dizer que as fotos são muito fofas, SUA LINDA.
Publicado por Deborah Leão em abril 20, 2011 às 9:04 pm r r
Hahahaha! São todas fotos originais, tiradas das minhas Labs, Phoebe (a loira) e Morgana (a morena). Essas são as minhas favoritas, aquelas fotos que eu não canso de olhar… Quem sabe vocês não vão conhecer a Phoebe quando vierem?
Publicado por Amanda em abril 18, 2011 às 7:31 am r r
Não acredito! Eu googlei “a realidade, maria, é louca”, que é parte daquela cronica que eu AMO e cai aqui no blog. Dai vi meus blogs preferidos ali do lado e achei o maximo a coicidência. Então quando fui ver quem é autora, é você! A gente interage no twitter e tudo!
Publicado por Deborah Leão em abril 20, 2011 às 9:07 pm r r
Internet tem dessas coincidências, né? Esse texto é minha paixão, desde que o li pela primeira vez, com uns 14, 15 anos. Desde então, o tempo todo lembro de algum trecho – como diz o próprio Paulo Mendes Campos do livro de Alice, é um “simples manual do sentido evidente de todas as coisas”. Que bom que você chegou por aqui, seja bem-vinda. Não escrevo muito, não encho o Reader de ninguém, mas não abandono meu barquinho =)
Publicado por Marcos Bossle em abril 18, 2011 às 6:19 pm r r
Sim, a Deborah além de melhorar sua relação com seus próprios cães, ajudou muiiiiita gente a fazer isso também, inclusive eu que já era treinador profissional algum tempo.
Ela me ajudou a mudar de um treinador que só usava aversivos como conduta e me ensinou um outro caminho…
E viva o reforço positivo, hehehe.
Não some ´´puxadora´´
Abço,
Marcos Bossle.
Publicado por Deborah Leão em abril 20, 2011 às 9:08 pm r r
Valeu, puxador! Fico muito feliz de ter mostrado a você outra forma de fazer as coisas, e que você tenha achado que valia a pena mudar. Tenho um carinho enorme por você, mesmo andando tão sumida. Boa sorte com as novas empreitadas. Beijão!
Publicado por long haired lady em abril 19, 2011 às 11:10 am r r
é verdade que os dachhunds ficam mais ranzizas quando vão envelhecendo, eu tenho um de 5 anos e ele agora esta mordendo as pessoas, eu queria fazer um adestramento, mas me disseram que não adiantaria…
Publicado por Deborah Leão em abril 20, 2011 às 9:13 pm r r
Lady, todo cachorro fica um pouco menos sociável à medida que vai ficando velho. Porém, se ele está mordendo as pessoas, é bom procurar um adestrador, sim. Não acredite nessa história de que cachorro velho não aprende mais nada, isso não existe. Qualquer cão, de qualquer idade, pode ser adestrado. É claro que a qualidade dos resultados pode variar, dependendo do tipo de problema e do quanto ele está enraizado, mas sempre é possível obter algum nível de progresso.
Em que cidade você está? Dependendo, posso indicar alguém para te ajudar.
Publicado por Fernanda em abril 22, 2011 às 12:36 pm r r
Deb,
Você esqueceu de mencionar que além de ter aprendido a lidar da melhor maneira com suas malucas e ter ajudado muitos outros, encontrou muitos amigos cachorreiros pelo caminho.
Beijos,
Fê
Publicado por Deborah Leão em abril 22, 2011 às 12:51 pm r r
Ah, mas nesse mérito eu nem entrei, senão não cabia no post =)
Publicado por Vivian em abril 23, 2011 às 12:20 pm r r
Adorei mais o post da Fê… hahahaha
Poxa com esse ainda teve q ajudar um cão q tá véio e ranzinza, puts… rs
Hoje to lendo os blogs e vejo uma lab morena e uma loira, vc disse isso mesmo??? Tava bebendo??
Quando for falar dos amigos, lembra q todos te achavam nerd e chata, e depois deletaram isso e apenas te adoram… kkkk
Bjos Moco