Procrastinação

Eu confesso: sou uma procrastinadora¹ crônica, com pouquíssimas chances de reabilitação.

Antes que alguém pergunte como consigo ser advogada, sendo ao mesmo tempo procrastinadora, dou uma resposta simples. É que os prazos são os grandes amigos da procrastinação. São eles que impedem que procrastinemos ao infinito, limitam o lapso temporal do adiamento. Toda vez que preciso fazer alguma coisa, estabeleço um prazo peremptório – se for dilatório, já sei que vou insistir em ampliá-lo seguidamente.

Porém, nem tudo nessa vida tem prazo, e são exatamente as tarefas desprovidas de prazo fixo que fazem o inferno de todo procrastinador. Aliás, que fique claro que esse inferno é composto de dois aspectos, o interno e o externo.

O aspecto externo, por óbvio, é a cobrança alheia. É o amigo que pediu um CD com as fotos da viagem, o parente que pediu um parecer sobre determinado assunto (no meu caso, normalmente problemas jurídicos de todos os tipos, inclusive aqueles fora da minha esfera de compreensão), o colega de trabalho que quer uma opinião. Todas essas pessoas estão ali, constantemente cobrando, ainda que silenciosamente.

Já o inferno interior é a culpa, e essa é ainda mais cruel. A culpa permeia todos os momentos da vida. Se me permito um lazer, lá vem a culpa me lembrar das tantas obrigações procrastinadas. A culpa se imiscui inclusive nos meus sonhos, e é comum sonhar que perdi um prazo, ou que tenho uma tarefa a cumprir que esqueço repetidamente.

O aspecto externo interfere diretamente no aspecto interno. De certa forma, até prefiro que a cobrança alheia seja bem marcada e insistente, porque, ao mesmo tempo, me torna mais propensa a vencer a inércia, e, por outro lado, diminui a culpa – a chatice do outro é um bom alívio para as nossas culpas. Que o digam os maridos infiéis cujas esposas lhes enchem os ouvidos de reclamações e desaforos (ou vice-versa, nesses tempos de igualdade substancial).

Então, repito: eu procrastino. Tenho no meu carro uma sandália, uma calça e uma bolsa para consertar, e uma blusa para trocar. Estão ali há tempos variados, entre 3 meses e 2 semanas, e as providências vêm sendo sucessivamente adiadas. O antivírus do meu computador expirou, e ainda não consegui uma hora para trocá-lo por outro (que já tenho, inclusive).

O procrastinador adia a vida, na esperança de que ela própria se resolva. Adia os compromissos, para que possa também adiar a fruição. O procrastinador é um masoquista. Escrever esse post é procrastinar o que eu deveria estar fazendo agora.

Duas animações muito bacanas que refletem bem como a procrastinação funciona:


¹Procrastinar:
transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair

Anúncios

8 comentários sobre “Procrastinação

  1. Credo! Tava pensando hoje que sou uma procrastinadora compulsiva, se é que existe! Se existe a obrigação de fazer, pode saber que vou enrolar. Venho tentando me educar, criando horários (inclusive com minutos) para fazer tal e tal tarefa. Outra coisa que descobri: quanto menos coisa tenho para fazer, menos tempo tenho para fazer as coisas… ô trem doido!

  2. HAHAHAHA tb sou…tenho até comunidade no orkut sobre, mas confesso que me incomoda… há dias que enfrento verdadeiros dramas interiores por causa disso, hehe tento levar numa boa…o problema é o pessoal que convive conosco entender…rs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s