24

Quando eu tinha uns 7 anos de idade, eu e minhas amiguinhas do prédio da minha avó tínhamos uma brincadeira de “futurologia”. Num papel, desenhávamos um quadrado, e dentro dele escrevíamos a idade com que queríamos nos casar. Então, ao redor do quadrado, em cada um dos lados, escrevíamos, respectivamente, 3 nomes de meninos que conhecíamos, 3 modelos de carro, 3 lugares no mundo, e 3 situações de vida (que normalmente eram classe média, rica e milionária, já que ninguém queria descer de onde já estava, e eu freqüentei colégio e vizinhança de classe média-alta desde sempre).

A brincadeira consistia em, começando do primeiro nome de menino, ir pulando por cada uma das opções, contando em voz alta até alcançar o número dentro do quadrado. Então, a opção em que parávamos era riscada, e começávamos da seguinte, contando de novo, até só sobrar uma opção de cada tipo (um menino, um carro, um lugar, uma situação), que era caprichosamente circulada com caneta colorida. No final, ali estava a nossa vida futura: a idade com que iríamos nos casar, o noivo, o lugar da lua-de-mel, a situação de vida, e até mesmo o carro que teríamos.

A idade que eu costumava escrever dentro do quadrado, e disso eu me lembrei esses dias, era exatamente a que tenho hoje: 24.

Isso era mais que o triplo da idade que eu então tinha. Eu esperava, aos 24 anos, já ter tudo o que pensava ser importante nessa vida, já estar encaminhada, emparelhada, e rumo a uma felicidade sem fim. Considerava que, aos 24 anos, minha vida já seria plena de certezas, e de escolhas bem-feitas. Parecia um futuro tão remoto, que eu pensava que qualquer coisa poderia acontecer no meio tempo, mas com certeza, aos 24, já estaria tudo resolvido.

Hoje, tenho tudo, menos certezas. Tudo, menos escolhas bem-feitas. Cheguei a pensar em casamento, mas felizmente, desisti (ou a vida desistiu por mim, o que de qualquer forma foi a melhor opção possível), e por enquanto, ainda é tudo novo demais. Não tenho dinheiro para comprar meu próprio carro, e o carro que meu pai me deu não é o que eu teria escolhido. Ainda moro na casa da minha mãe, e não tenho perspectivas de sair de lá tão cedo. E definitivamente não tenho condições de viajar para Bali.

Fico sentindo que decepcionei aquela menina cheia de sonhos, porque cheguei aos 24 anos muito distante do que ela achava tão fácil conquistar. O mundo era dela, porque ela podia sonhá-lo, e fui eu quem despertou do sonho com um gosto amargo na boca, uma ressaca inesperada pelo que não bebi.

Quando estive nos EUA com meu pai, em 2005, ele me deu de presente uma escultura de leão em resina. Disse que era para enfeitar meu futuro escritório. O leão continua guardado dentro da caixa, porque não há escritório nenhum, não há sala nenhuma, tenho apenas uma bancada pequena numa sala compartilhada em escritório alheio, trabalhando todo dia porque não consigo sair do lugar, fingindo que estudo, fingindo que escolho, fingindo que a vida segue – mas ela está parada.

No fundo de mim, aquela menininha de 8 anos continua sonhando, mas ela não sabe que a realidade é louca, que a vida assusta, e que aos 24 anos há incertezas demais.

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10 comentários sobre “24

  1. Criança é um bicho besta, mas aparentemente as do sexo feminino são ainda piores. :-PDesde quando 7 anos é idade pra pensar no futuro?Quanto ao presente, não tenho muitos conselhos para dar… exceto de que casar é ótimo e eu recomendo 🙂

  2. Hmmm.Quando eu estava prestando vestibular e passei em 4º lugar numa faculdade muito boa (porém particular) aqui de São Paulo, o papai me deu uma Barbie veterinária.Sim, uma Barbie, que veio com o cachorrinho, umas três “chapas” de Raio-X e uma caixinha que quando vc aperta acende a luz. E então dá pra ver os ossos do bichinho. Por acaso ele TAMBÉM disse que seria pra eu enfeitar a minha clínica.Hoje cá estou eu, no último ano de Química Industrial, a menos de um mês pra começar a escrever a Monografia, estagiando numa tinturaria de tecido – que mais parece uma sauna gigantona de tanta fumaça e calor – e passo os dias em pé desenvolvendo cor pra pano.Também não era o que a menininha de 7 anos tinha em mente pro futuro, e também, o que mais tenho agora são incertezas.Mas alguma coisa me diz, lá no fundo, que tudo vai dar certo e acabar bem.Ânimo, mocinha, vamos! Um beijo!

  3. Também brinquei da mesma brincadeira, mas foi em 1910, então não me lembro a idade, nem o carro nem nada.Mas este post hoje me lembra aquele meu post tristinho… quando todas as luzes se apagam e parece que todo o mundo sorri, menos você, incapaz, que não conseguiu fazer nada. Aháaa, a vida é cheia dessas coisas e a paciência é realmente a maior (ou uma das maiores) virtudes. A gente temmmmmmmm que acreditar e correr atrás. Confie em mim, dá certo! =]]]Ânimo menina!Bjos, Desirée

  4. Eu sei exatamente de qual brincadeira vc fala! Acho então que foi mania nacional e durou várias gerações porque eu também brinquei muito disso e meu número mágico sempre foi 24 também. Coincidência ou não, casei aos 24 – e não me arrependo (hohoho – já que o patrão já passou por aqui é melhor endossar, né?).Mas se isso te serve de consolo, ano que vem mudo de década e ainda amargo um gosto ruim por coisas não realizadas. Será que nós, mulheres, desde sempre nos cobramos demais? Será que a gente se imagina uma mulher-maravilha quando na verdade isso é impossível? Ando com várias teorias nessa linha, viu?Beijinho

  5. olha, alguns dias atrás me peguei imaginando nas coisas que gostaria de fazer e não fiz… tava dando uma agonia só de pensar no que não fiz e tinha uma grande vontade de realizar, quantas coisas alguns conhecidos e amigos já fizeram e conquistaram e eu nada… mas logo depois me veio a idéia e comecei à olhar quantas coisas já fiz, e olha, foram mais do que aquelas que não fiz…e o melhor é que, estas coisas que fiz não estavam em planejamento algum (pelo menos a longo prazo)…e penso que isso é legal na vida, no final as coisas sempre se ajeitam.

  6. Liga nao! Quando vc chegar aos 34 vai ser pior! Hehehehe… brincadeiras à parte, te entendo muito bem, passei por isso várias vezes. Eu também me imaginava completamente diferente aos 34 anos e olha só, ainda nao casei, nao sou mae, nao fui e nem nunca serei correspondente internacional… como disse o seu amigo aí em cima, a gente fica nervoso porque se compara com os demais, acha que os amigos já conseguiram tantas coisas… mas nós também conseguimos coisas, e às vezes mais do que esses amigos, mesmo.Se alguém me dissesse que eu me casaria com 34 anos, iria cair pra trás, me imaginando no altar com uma bengala na mao. Mas aqui estou eu, meio véia talvez… mas as coisas acontecem na hora que tem que acontecer. E vc verá como tenho razao.

  7. Pingback: Querido ano velho « A realidade, Maria, é louca

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