Não-Leituras

Estou quase acabando de ler um dos livros que foi um frisson na FLIP desse ano: Como Falar dos Livros que Não Lemos, de Pierre Bayard. Aproveito para escrever o post antes de efetivamente acabar, exatamente para poder fazer jus ao título…

O fato é que, apesar do título, o livro não é um manual para falar sobre livros que não lemos. Ou melhor – não no meu ver. Afinal, um dos exatos pressupostos adotados pelo autor é o de que duas pessoas não lêem um mesmo livro. O fato de que percorri com os olhos um determinado texto não significa que a minha compreensão foi a mesma da pessoa que o escreveu, nem a mesma das outras pessoas que o leram.

Portanto: para mim, o livro não é um manual para falar sobre livros que não lemos. É, isso sim, um ensaio sobre a relação entre leitura e não-leitura, e sobre os diferentes papéis simbólicos dos livros. Um conceito recorrente é o do “livro interior”, a imagem que cada pessoa cria de determinado livro, e que é absolutamente única para o leitor. Outro, o da “biblioteca coletiva”, o conjunto de livros que constituem o imaginário de um determinado grupo.

Fiquei interessada pelo livro, inicialmente, porque muitas algumas vezes já me manifestei sobre livros apenas folheados, ou de que sempre ouvi falar, como se já os tivesse lido. E, ainda, porque tendo a me esquecer completamente de certos livros, a tal ponto de parecerem novos e surpreendentes quando os releio, algum tempo depois (eu sou do tipo de pessoa que esquece o final da piada e ri quando escuta de novo…).

Porém, o que percebi com a leitura é o próprio livro desafia essa idéia. Quem se propõe a falar dele sem lê-lo vai, inevitavelmente, considerar que se trata de uma apologia à não-leitura. Mas quem se dispuser a ler vai perceber que não é apenas isso, que se trata, muito mais, de um livro que examina a possibilidade da leitura propriamente dita, e as lacunas deixadas pela cultura.

O que é ler? Quando podemos dizer que lemos um livro? Eu li “A Montanha Mágica” e “O Retrato do Artista Quando Jovem”, mas já me esqueci de quase tudo – posso considerar, então, que realmente os li? E o que dizer da “Divina Comédia”, do “Dom Quixote” e do “Fausto”, que habitam minhas prateleiras, com marcadores empoeirando logo nas primeiras páginas – foram lidos?

Continuo tentando ler, continuo com minha compulsão pela leitura (e pela compra de livros), mas agora, pelo menos, não me frustro tanto, ao pensar que somos tantos os não-leitores.

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4 comentários sobre “Não-Leituras

  1. Vejo meio diferente sobre os tantos livros que lemos e ficam esquecidos. Uma vez Einstein disse que quando estudamos (e podemos dizer quando lemos) nunca mais somos os mesmos – não sei a frase correta (taí uma das provas que guardei o objetivo e não o objeto do texto). Mesmo que o conteúdo fique guardado em algum compartimento obscuro do cérebro, a informação está ali, mas não necessariamente em formato de texto corrido. Ela se acrescenta ao nosso repertório diário, como uma nuvem de tags: palavras soltas, frases marcantes, o objetivo e o subjetivo apresentado no livro nos marcam e vão moldando a nossa forma de pensar, o nosso (des)gosto pela leitura e obviamente as nossas atitudes. Assim, quanto mais lemos ou estudamos, vai se formanto uma gigantesca teia de informações no nosso cérebro e mais cedo ou mais tarde, vão contribuir para nossa vida – no nosso repertório para escrita, fala, discussões, idéias, criatividade, relações, blablabla… nossa escrevi demais!rs

  2. Com toda certeza, duas pessoas não lêem o mesmo livro, acho que a interpretação vai de acordo com a formação insana de cada um. Eu por exemplo odiei o começo do livro “O Caçador de Pipas”, só por ele citar inúmeras vezes baba daqui, baba de lá…Já outras pessoas disseram ter achado legal e bacana a leitura. De fato pode ter sido, pois se tornou até um longa metragem e tals. Mas as visões são diferentes mesmo. Abraço.

  3. Curioso é reler um livro, às vezes. A primeira vez que li “O Apanhador no Campo de Centeio” eu simplesmente AMEI, li em dois dias, fiquei vidrada… tinha 19 anos, na época. E voltei a ler quando tinha 30, já havia vivido tantas coisas, que quando reli achei meio bobinho. É curioso como a nossa cabeça muda com o passar dos anos.

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