Rotina

Chega um momento em que a rotina se instala. Comodamente, ocupa o sofá e coloca os pés sobre a mesinha de centro. Não é uma visitante indesejada, ainda mais no caso de alguém que gosta de previsibilidade e estabilidade. Eu gosto da rotina.

O problema é o que ela vai se tornando.

Ela é a desculpa para a falta de notícias – “nada de novo, só a rotina de sempre”; para os desencontros – “ah, rotina atarefada, não pude ir encontrar vocês aquele dia”; para os esquecimentos – “no meio dessa rotina doida, acabei esquecendo seu aniversário!”.

Em nome da rotina, o assunto vai rareando, as idéias se vão perdendo, as amizades se enfraquecem, e até o amor pode perder o brilho. É perigosa, a diaba. Paradoxalmente, ameaça exatamente a estabilidade que, em teoria, preserva.

Ou talvez não seja a rotina, mas o acomodamento. Talvez se coloque a culpa na rotina, sem que ela, coitada, tenha qualquer culpa no cartório. A rotina é só a repetição da seqüência de algumas atividades básicas – trabalhar, estudar, comer, fazer exercício, respirar, dirigir, subir de elevador. Mas se o tédio se instala na realização dessas tarefas, e nos interstícios, o que tem a rotina a ver com isso?

O que estraga não é a rotina, é a mesmice.

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3 comentários sobre “Rotina

  1. Ôxe, quebremos a rotina imediatamente, então! Não está vendo mesmo que isso não é coisa que se admita? E com a quebra da rotina, que se estraçalhe igualmente a mesmice, com mais razão ainda.Este decreto entra em vigor na data de sua publicação.

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