Vizinhos


A vida em sociedade se enquadra na categoria “mal necessário”. Somos uns bichos gregários, dependemos uns dos outros, e nos amontoamos para sobreviver. Nas cidades, isso fica ainda mais relevante: o amontoamento é literal, e vivemos empilhados em caixotes.

Tanta proximidade exacerba um dos aspectos problemáticos da convivência coletiva, que é justamente a presença do outro, com seus hábitos e valores diferentes dos nossos. Uma das regras para o bom convívio é justamente procurar respeitar o outro – não impondo nossos hábitos de forma ostensiva – e tolerá-lo, aceitando alguma dose eventual de incômodo.

O problema é que não é fácil administrar esse precário equilíbrio, principalmente porque, hoje em dia, as relações entre vizinhos deixam de ser pautadas por qualquer tipo de amizade. O vizinho passa a ser apenas aquela pessoa que mora ali do lado, sem que se busque mais nada em comum. É muito mais fácil ser tolerante com um amigo, do que com um estranho; é muito mais fácil se preocupar em respeitar um amigo, do que um estranho. O resultado é que os conflitos de vizinhança afloram cada vez mais.

Toda essa introdução, só para poder reclamar dos meus próprios vizinhos. Moro num prédio que tem 18 andares, com 3 apartamentos em cada andar. Meus vizinhos de andar são pessoas ótimas, nunca tivemos qualquer desavença. Aliás, em 10 anos morando aqui, nunca tínhamos tido qualquer espécie de problemas de vizinhança. Isso, até a chegada do casal do andar de cima.

O casal do andar de cima é um casal jovem, embora sejam mais velhos que eu, um pouco. Moravam numa casa em cidade do interior, e é a primeira vez que moram em apartamento. E são pessoas animadas, que têm uma turma de amigos aqui em BH.

Logo que eles se mudaram, era festa toda sexta-feira. Nas primeiras semanas, nós toleramos bem. Pensávamos que era só o entusiasmo da casa nova, o apartamento tem uma bela varanda, e eles queriam aproveitar. O chato é que o barulho da varanda deles vai direto para o meu quarto, e eles costumavam falar alto, e até tarde. Mas tolerávamos, tolerávamos. Quando passavam um pouco dos limites, ligávamos para o porteiro, esperando que eles se acostumassem logo com a nova rotina.

Só que não se acostumaram, e as semanas viraram meses. O barulho se arrastava, o som alto, a conversa barulhenta, madrugada adentro – e não mais apenas nas sextas-feiras, mas até mesmo durante a semana, eventualmente. As ligações do porteiro no interfone já não surtiam tanto efeito. A gota d’água veio numa noite em que, depois de já termos pedido para abaixar o volume à 1h da madrugada, fui acordada às 3h com a clássica canção pop-teen-anos 80 “Lua de Cristal” sendo berrada a plenos pulmões por um bando de bêbados.

Isso gerou uma reclamação formal no Livro de Reclamações do condomínio, e uma advertência do síndico. E paz para nós.

Ou, pelo menos, paz até a última sexta-feira, quando novamente fui acordada à 1:30h, mas agora por “Ilariê”. Nova intervenção do porteiro (que já está com tanta raiva deles quanto nós), nova reclamação ao síndico. E, espero, mais alguns meses de paz.

Várias reflexões poderiam ser feitas, aqui. O individualismo exacerbado. A falta de preocupação com o sossego alheio. A ausência de parâmetro da parte de quem nunca morou em apartamento. O impacto de vivermos pisando na cabeça de alguém, literalmente, ao morarmos empilhados.

Mas não adianta, o que realmente me intriga é: por que diabos esse pessoal gosta tanto da Xuxa?

Anúncios

5 comentários sobre “Vizinhos

  1. Convenhamos que Ilariê quebra a rotina de qualquer ser humano, né?! Mas é dureza ver que as pessoas (pelo menos algumas) não sabem respeitar o coletivo. Falta muito para que seja possível dizer que somos civilizados… :((((

  2. É por isso que eu odeio seres humanos de uma forma geral e tento manter a maior distância possível de todos. Especialmente vizinhos.Felizmente hoje meu vizinho mais próximo mora a uns 100m de mim, divididos por muitas árvores e mato. Vidão![]’s

  3. Vc não vai acreditar. Lembra do favor que eu ia te pedir(interrogação). Era extamente um texto falando da falta de respeito de vizinhos. Tenho sofrido com os meus de cima também. Mas, para te incomodar resolvi arriscar e escrevi. Coloquei no elevador do meu prédio. Surtiu um bom efeito. Vou mandá-lo pelo seu email. O q mais me irrita é a falta de bom senso! Bjs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s