Feminismo, ateísmo e outros “ismos” (1)

"Sou uma feminista, e aí?"

Há um bocado de tempo, quando eu devia ter aí uns 10, 11 anos, meu pai comprou uns livrinhos do “Movimento Machão Mineiro”. Para quem não conhece, o “MMM” (como eles mesmos abreviam) é o responsável pela organização da Banda Mole, um tradicional bloco de homens vestidos de mulheres, que antecede o Carnaval beaguense.

O principal livrinho (que é quadradinho do tamanho de um descanso de copo) do MMM é chamado “Centifólio do Machão”, e é fundamentalmente um apanhado de aforismos machistas e piadas de mau gosto. Uma das seções se chamava “Feministas: cc, chulé e mau hálito”, e reunia todo tipo de piada cretina sobre as feministas como mulheres mal-amadas, mal-comidas e feias. E esse foi o meu primeiro contato com essa categoria.

Cresci ouvindo falar de feminismo como algo ultrapassado e obsoleto, que tinha sido útil nas décadas de 60 e 70, mas tinha perdido seu sentido no mundo contemporâneo. As feministas remanescentes eram mulheres raivosas e pouco femininas, dedicadas a denunciar o “patriarcado”, e mortas de inveja dos homens. Definitivamente não era algo a que eu desejasse me associar.

"Feminismo é a radical noção de que mulheres são pessoas"

Mas o tempo passa, e novas leituras começam a trazer novos pontos de vista. Gente como a Lu e a Marjorie, que, embora muitas vezes divirjam na forma e nos detalhes, me mostraram que não, ainda não acabou a utilidade do feminismo. E não, feministas não têm cc, chulé e mau hálito, não são mal comidas, e não morrem de inveja dos homens. O que as feministas fazem, o que defendem, é o direito das mulheres de serem enxergadas como indivíduos com a mesma importância que os homens – e que devem, portanto, ser respeitadas e valorizadas, sendo a nós garantida a prerrogativa fundamental de fazer as escolhas que preferirmos.

Como é que eu poderia discordar de uma afirmação dessas? Cresci sem nunca ter ouvido dos meus pais que não poderia fazer algo por ser menina. Fui moleque de tudo, joguei futebol e bafo, subi em árvore, tinha mais amigos meninos que meninas. Nunca me cobraram que estivesse penteada e composta, colocaram em mim roupas confortáveis e me permitiram descobrir por conta própria as coisas de que gostava. Tive uma Barbie só, de cabelo anelado, e tinha pouca paciência para brincar de casinha. Gostava de jogos de inteligência e estratégia, de brincadeiras ativas, de ler.

Quando cresci, a expectativa em relação a mim continuou sendo completamente independente do meu sexo. Meu pai queria que eu fizesse Direito (o que acabei seguindo, meio aos trancos e barrancos, o que é assunto para outro post), e minha mãe queria apenas que eu fosse independente, mas sempre foram planos formulados para uma pessoa – não para um gênero. Aliás, meu pai me deu mais liberdade, e confiou mais nas minhas habilidades, do que o vejo hoje fazer com meu meio-irmão, que é homem.

Então, assumia que isso era natural. Não parava para pensar em nenhum tipo de discrepância, porque ela não era visível para mim. Na minha redoma, ser mulher não era nenhum tipo de menos-valia.

Mas aí veio o mundo “lá fora”, e, com ele, as pequenas discriminações. A intimidação. Os homens que se valiam de sua posição para assediar. A constatação de que, embora na Faculdade de Direito houvesse mais mulheres do que homens, e as melhores alunas da sala fossem todas mulheres, na diretoria da OAB só havia uma ou duas mulheres. No TJ, no STF, no Congresso, em todos os lugares de poder, as mulheres eram minoria, isso quando sequer estavam presentes.

Eu não tinha mais escapatória: descobri-me feminista. Saí do armário, por assim dizer, porque a conclusão a que cheguei é que sempre fora. Tendo tido uma educação liberal, pautada no respeito pela escolhas alheias, jamais aceitaria que alguém me tolhesse no meu direito de ser o que quiser.

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18 comentários sobre “Feminismo, ateísmo e outros “ismos” (1)

  1. O pior é que a discriminaçao acontece em todas as partes. Aqui também. Outro dia, li o jornal que os salários das mulheres espanholas sao menores que os dos homens. É triste…

  2. Pingback: Carta a mim mesma « A realidade, Maria, é louca

  3. Legal o post! Acho que é por aí mesmo. A gente acaba descobrindo de verdade o feminismo e se identificando com ele, quando descobre um machismo bem cretino e hipócrita que ainda existe.

    Bjus

    • Não tem como, né? É uma reivindicação tão justa, tão aparentemente simples, que a gente acaba se descobrindo feminista, mesmo, até quem tem mania de dizer que não é feminista, é feminina…

  4. Num tô falando que os concursos do blog da Lola são uma maneira excelente pra gente dar de cara com textos bacanas? Adorei o seu!

    E vou passeando por seu blog… tão bom.

    bj
    Rita

  5. o outro concurso da lola sobre feminismo foi o ponto exacto em que decidi me auto-denominar feminista. conheci muito blog bom, li muita coisa interessante e abri ainda mais minha cabecinha pra certas questões. por isso, decidi participar desse concurso ativamente, porque o pior que pode acontecer eh que eu conheça blogs legais 😉

    adorei o post!

  6. Olá Débora! Assim como vc, também não tive nenhum tratamento diferenciado na minha criação pelo fato de ser do “sexo feminino”. Eu e meu irmão fazíamos tudo juntos: viagens, passeios, brincadeiras…castigos.Enfim, dentro de casa, sempre igualdade! Já na rua…as vezes de forma sutil,outras nem tanto,comecei a perceber que, algumas pessoas esperavam de mim, um comportamento “compatível” com a minha condição de “sexo frágil”.Como em casa, a base tinha sido boa, sempre consegui me impor e mostrar que existe algo mais em mim, do que apenas o fato de “ser mulher”. Se tem que ser assim…que seja! Parabéns pelo post! Bj!

  7. Oi Deborah,

    Eu ia escrever um post para o concurso da Lola, a terceira fase, e cheguei a rascunhar alguma coisa. Meu texto era muito parecido com o seu, mais ou menos porque também tive uma educação liberal e não precisava me impor. Acabei não mandando o texto, e agora li o seu que diz, na essência, quase o mesmo que o meu… estou bem representada!

    Beijos

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