Cada coisa em seu lugar

Seis xícaras vermelhas de plástico da Air France. Uma tigelinha de porcelana com pintura de uma paisagem da Toscana, e uma rolha, com cobertura de porcelana, de Montalcino. Duas flûtes francesas baratinhas. Meia dúzia de ímãs de geladeira. Livros, mutos livros. Roupas e sapatos. Cinco moleskines. Uma joaninha amarela de pelúcia. Uma caixa de recuerdos. Bijuterias e quinquilharias. Algumas pilhas de papéis. Produtos de higiene e beleza. Uma coleção de marcadores de livros. Mais livros. Um notebook novo, um notebook velho, dois celulares novos, dois velhos, uma câmera começando a estragar, e seus respectivos cabos e carregadores.

É esse, fundamentalmente, o rol de coisas que eu tenho para levar para a minha nova casa. Cabe em um parágrafo não muito grande, e de fato não é muito, felizmente, já que provavelmente vou morar em algum lugar bem pequeno – apartamentos são caros no Rio de Janeiro.

Olho as minhas coisas com o olhar curioso de quem nunca as viu antes. Não precisam de caminhão de mudança – meu carro se encarrega. Meu carro, esse que não é bem meu, mas que mesmo assim vou vender em breve, porque um carro é um luxo caro e pesado para quem está começando vida nova. E vai ser uma bela experiência, essa, de escolher não dirigir um carro quando vou finalmente dirigir a minha vida.

Cheguei da Europa na quarta, e o porteiro já me esperava com o telegrama recém-chegado. Mal tive tempo de curtir a ressaca e o jet lag, precisava me preparar para a próxima etapa. Nem bem as imagens de Paris assentaram na retina, nem bem consegui recuperar o fôlego depois das ruínas romanas, e já era hora de encher a cabeça de planos e preparativos.

Olhando para as minhas coisas e já pensando se elas caberão no lugar onde nem sei ainda que vou morar. Essas coisas, que nunca saíram daqui. Eu, que nunca saí daqui. Vivi em BH. Como diria o poeta, principalmente nasci em BH. Não há como desvincular o que sou da cidade onde passei cada um dos meus 26 anos, da Praça da Liberdade, do Parque Municipal, do Mercado Central, da Avenida do Contorno, da Drogaria Araujo, do Colégio Loyola, das memórias,  sonhos e medos escondidos em cada esquina, impregnados nas calçadas. Como coisas, nos seus lugares.

E eu, aliviada, esperançosa, mas ainda sem lugar.

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9 comentários sobre “Cada coisa em seu lugar

  1. O Rio de Maio terá um Belo Horizonte.

    O Velho Mundo cabe no seu olhar, então embeleze seu canto carioca com a cidade que estará sempre em você.

    Voe Abelha!

  2. Oi! Precisamos conversar muuuuuiiitooo… vamos ver quando nos encontramos no msn outra vez! Tenho milhoes de coisas pra te contar e perguntar! 🙂
    Já vivi esse momento, apesar de nao ter sido exatamente igual, mas sei o que você quer dizer. O que o seu amigo aí em cima disse é verdade; nao é só o Velho Mundo que cabe no seu olhar, BH também, e muito da sua história também… e nao só em objetos e fotos, mas também música, cheiros… você vai encontrar como leva-los com você!

  3. Sensacional a forma que você coloca essa mudança (em todos os aspectos) na sua vida. Estender os limites e sonhar sempre fez parte da minha vida e fico imensamente feliz em ver você pegando seus “stuffs” e se atirando.

    Sucesso menina!

    Super beijo do Pepe!

  4. Pois demorou a criar asas, Dé. Fique com o carro e leve as coisas nele (livros por baixo, espalhaos, fora de caixas. São muito pesados.Daí as caixas e malas com o restante). Considere um apto maior numa área menos valorizada (mas ainda assim longe de morros). Aluguel é caro mas teu novo salário é bem maior. 🙂

  5. Ah Menina. Você espera acontecimentos e eles acontecem, viu?! Que bom! Me conta que vai fazer lá depois… fiquei curiosa! 😉
    Na sua descrição li cinco moleskines e pensei: aiiiii, eu não tenho nenhum! rs

    Boa sorte, boa fé, boa viagem, boa vida, bom começo. Tô na torcida! Desirée

  6. Então, pessoas queridas, estou bem empolgada, mesmo.

    Taissa, vou deixar para vender o carro depois da mudança, mas vou vender, sim. Carro dá MUITA despesa, e nem vou poder ir trabalhar com ele, porque a Petro não tem vaga pra todo mundo, tem que entrar na fila, ou então pagar 300 pratas de mensalista em algum estacionamento do Centro. Não rola, mesmo. É por isso que quero morar perto, pagar um pouco mais, mas ter a comodidade de me locomover a pé, de metrô, ou de táxi.

    Desirée, estou indo embora porque passei no concurso da Petrobras para Advogado Júnior. Já estou fazendo meus exames admissionais, devo ir para o Rio até meados de julho. Ah, se soubesse que você tinha tara por moleskines, também, tinha trazido um pra você da Europa. Aliás, ainda podemos marcar de tomar um café antes de eu ir embora, hein?

    Alê e Dani, meu esforço agora é pra emoldurar direitinho as memórias no pensamento, pra poder olhar pra elas de vez em quando, quando bater a saudade. Mas a nostalgia tá perdendo feio pra empolgação de ir e construir.

    Pepe, saudade docê, super obrigada. Já está convidado a ficar lá em casa quando for correr no Rio!

    Amor, Nero e Augusto são empréstimos, vão ficar lá em casa só te esperando 😉

  7. Deb,

    Você sabe o quanto estou feliz por você né? Perdi a chance de conhecer BH pelo visto. Agora vou conhecer o RJ!! Já estou me convidando… Hahahaha
    5 moleskines? Uau!! Um dia compro um para mim….

    Mas uma duvidinha só: tem certeza que cabe todos os seus livros no carro? Tem certeza disso? Hahahaha

    Precisamos prosear mais viu.
    Beijos!

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