Feminina

– Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
– Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
– Então me ilumina, me diz como é que termina?
– Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.

Assim começa a música “Feminina”, composta e cantada por Joyce, no disco de mesmo nome (que também contem “Clareana”, outra deliciosa pérola da MPB).

“Ô mãe, me explica, me ensina me diz o que é feminina?” é uma pergunta que, de alguma forma, toda menina faz à mãe, não uma, mas várias vezes. Ela quer uma identidade. Já sabe que existem diferenças anatômicas entre si e os meninos, mas e aí? O que fazer disso? Não, não há resposta simples.

Os gregos culparam Pandora pela libertação de todos os males do mundo. A Bíblia colocou sobre Eva a responsabilidade pelo pecado original. Mulheres foram perseguidas na Idade Média, acusadas de serem bruxas, usadas para expiar o medo e a culpa de todos os demais. Quando o movimento feminista surgiu, na década de 60, logo surgiram também as reações iradas contra aquelas mulheres que desafiavam a ordem instituída. A ameaça é associada ao feminino: a bruxaria, a dissimulação, a noite, a mentira, aquilo que não tem uma forma clara. A mulher é desconhecida, e, por isso, apavora.

Maria Rita Kehl menciona, em um texto chamado “O que pode uma mulher?“, uma interpretação da frase de Lacan de que “não existe A mulher”. A mulher não teria significante por não ter sido a ela permitido se inscrever no campo da cultura. A cultura ocidental é masculina, e só recentemente as mulheres vêm reivindicando seu papel de sujeitos em igualdade de condições – mesmo assim, a passos lentos, e ainda há quem considere que elas estão fora do seu “ambiente natural”.

Aliás, é de se dizer que existe muito pouco de “natural” na definição da identidade de gênero. Masculino e feminino são construções. Ademais das diferenças fisiológicas – que não são tantas assim, embora determinadas correntes de psicologia evolutiva de botequim muito insistam na sua existência – todo o restante é culturalmente determinado. Papéis sociais,  formas de relacionamento, modelo de família.

Uma das queixas que existe em relação às feministas é a de que elas subverteram o modelo tradicional de família. Algumas mulheres ainda se lamentam, porque prefeririam levar uma vida de dona de casa dos anos 50, a precisar trabalhar na rua. E a verdade é que, embora as pessoas digam que querem ser livres, a liberdade e a emancipação são, sim, muito difíceis, porque nos colocam diante do grande desafio das escolhas. A dona de casa dos anos 50 não tinha escolha, e não falta quem considere isso um alívio.

Voltando, porém, à vaca fria (“cold bitch” seria a versão em inglês, e é um belo xingamento para se dirigir a uma mulher), o enigma do feminino está exatamente naquilo em que desafia as amarras. Adélia Prado, em “Com licença poética”, avisa, depois de dizer que carregar bandeira é cargo pesado para a mulher, espécie ainda envergonhada: “Mulher é desdobrável. Eu sou.” O grande segredo do feminino, e uma das razões para a afirmação de Lacan, é ser reinventável.

Desdobráveis, somos. Não sei dançar, sou muito pouco delicada, conto piadas cabeludas, detesto comprar roupa, não acompanho novela, carrego coisas pesadas, gostava de jogar futebol (e sei a regra do impedimento!), pratico arte marcial, falo palavrão. Ainda assim, sou mulher. Por quê? Porque o “ser mulher” não é nenhuma dessas coisas. Nenhuma das características tradicionalmente associadas ao feminino é suficiente para traduzi-lo. Como o masculino, inclusive, mas uma coisa de cada vez.

O que quero dizer é: toda vez que vejo um ressurgimento dos estereótipos, uma exacerbação das diferenças de gêneros, uma afirmação da “macheza” ou da “feminilidade”, tenho calafrios. Como as batatas ruffles “pra menino” e “pra menina”. Ou um texto que diga que o papel de conhecedor de vinhos cabe ao homem, devendo a mulher ficar caladinha, mesmo que saiba mais. Ou um desembargador afirmando que só pode ser mentira uma candidata a juíza afirmar que o marido médico vai largar o consultório para acompanhá-la. Aquilo que nos permite sermos livres e agirmos conforme o nosso desejo é exatamente a liberdade de ser. Doença é absolutizar o relativo, e não aceitar que os papéis de gênero são mutáveis, e que a beleza dos relacionamentos humanos está exatamente na possibilidade de negociá-los.

Feminino não tem solução universal. Como conclui Joyce:

“E esse mistério estará sempre lá
Feminina menina no mesmo lugar”


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6 comentários sobre “Feminina

  1. Aih aih… menina mulher… nós?? Sem chance… tudo tosca hahahahahahaha

    Perfeito amiga…!
    Entender de futebol?? Nós jamais…

    Ando ouvindo isso da minha mãe, tem q ser mais feminina… mais sexy rs

  2. Imagine então para um gay, que sempre vê os machistas e feministas confundindo sexualidade com gênero…

    Agora, cá pra nós: imagina a reação daquele desembargador ao escutar de um candidato que o parceiro dele o acompanharia para onde ele fosse – não que um candidato falaria tal coisa, o que eu duvido. Qual seria a reação dele?

    • Ah, você há de imaginar que, nesse tipo de ambiente, prevalece a tal política do “Don’t Ask, Don’t Tell”, né? E se alguém ousar dizer “sou, sim, e daí?” o mais provável é que façam como fizeram com a tal candidata, e encontrem algum motivo incrível para reprovar.

      O problema é que mudanças de costumes levam tempo, e de vez em quando dá uma preguiça danada disso tudo, ainda mais quando a gente percebe como algumas linhas de pensamento continuam inacreditavelmente comuns.

  3. Pingback: Feminismo e privilégio « A realidade, Maria, é louca

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