Cheguei.

Vim vindo, e cheguei. Quase dois meses de Rio. Vim na maluquice, o carro cheio até o teto da tralha que era maior do que parecia, o gato de pelúcia com lugar de honra no painel, muitos risos, e um pôr-do-sol tão lindo na chegada, que era até covardia. Cheguei numa terça-feira, e já peguei hora do rush para inaugurar.

O apartamento é minúsculo, um conjugadinho, num prédio feio. Mas a vista da janela logo de manhã, um panorama do Corcovado, completo, com o Cristo no alto e a floresta embaixo, me encheu de apaixonamento por essa cidade que agora chamo de casa.

Tudo ganha ares de aprendizado. No primeiro dia em que precisei me apresentar para assinar o contrato de trabalho, o medo era não conseguir encontrar a estação do metrô. Os arredores da minha casa eram desconhecidos, ameaçadores, as ruas tinham nomes estranhos. E a operação do metrô? Bilhete único, bilhete pré-pago, bilhete integração, catraca, sentido, linha. Minha terra tinha disso, não.

Minha terra não tinha esse calor maluco, nem esse sol, minha terra não tinha esse mar lindo, essas pedras que os titãs jogaram no meio da cidade, esses prédios históricos, essas praças cheias de estátuas. Minha terra tinha ipês, construções do Niemeyer, Serra do Rola Moça e cruzamentos em asterisco. E não tinha metrô. Ou melhor, tem, mas é quase como se não tivesse.

A confusão da mudança. Os detalhes não planejados, jamais imaginados, as compras necessárias, a tentativa de deixar o lugar com a minha cara. Os caminhos errados, com desvios de quilômetros. O moço da Net que não vem na data certa, a cama chegou – “não precisamos dormir no chão”, já dizia Renato Russo, na música que é a melhor descrição do começo de uma vida em casal -, tem que fazer compras e encomendar o gás.

De repente, então, me olho e me vejo. Ali, parada, no meio de uma vida que eu ainda não reconheço, mas que já é a minha. Vida de gente grande, com salário, contas pra pagar, roupa pra lavar, e a liberdade com a qual eu vinha sonhando.

Dois meses, e ainda estou em adaptação. Tem dias em que surto, ansiedade, solidão, medo de não dar conta. Medo de crescer, susto porque já cresci, e porque não tem mais volta.

Já era. Cheguei.

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15 comentários sobre “Cheguei.

  1. Ahhh lembra qdo te conheci, que liguei pra Carol e perguntei a sua rua é essa cheia de prédios?? hahahahahahahahahahahhahah
    Que me perdi no metrô???
    Isso é normal até pra quem mora em cidades gigantes a vida toda!!

  2. Tarde nublada de sábado…tempo livre para acessar o mundo e os amigos via internet. Qual não foi minha surpresa ao ver seu texto de chegada a cidade maravilhosa! Não poderia deixar de comentar que me enche de orgulho ver a menina que conheci ….depois adolescente e agora mulher vivenciando a própria independencia e vencendo os seus medos do dia a dia. É assim mesmo…..e é gratificante! Conte conosco. Tatiana, Jorge e Igor. Bjs.

    • Nem tenho como te agradecer, Tatiana. Você não faz ideia do quanto tem sido importante para mim o super apoio que você me dá, tanto emocionalmente, me acolhendo como família, quanto nos aspectos práticos, mesmo. Essa vinda para cá seria trocentas vezes mais difícil sem isso. Quando tento dizer às pessoas quem você é, acabo desistindo do “ex-madrasta”, porque o carinho que tenho por você não é distante desse jeito. Obrigada por tudo.

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