Democracia

Em época de eleição, a gente acaba ouvindo uns comentários curiosos. Boa parte deles, referindo-se ao voto dos pobres, ou à eleição de figuras polêmicas, como Tiririca ou Weslian Roriz, atacando a democracia. “Isso é democracia, minha gente” ou “Democracia demais dá nisso”, num tom de sarcasmo e desdém.

E é aí que eu digo, sem sarcasmo algum: isso é democracia, minha gente.

A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras que já foram testadas, como dizia Churchil, o que faz dela a escolha de boa parte do mundo. Aliás, escolha é bem o que diferencia a democracia dos demais sistemas (ou regimes) políticos.

Não é à toa que tanta gente fique indignada com a democracia, porque ela nos obriga a contemplar o que preferimos fingir não saber: o mundo está cheio de gente diferente de nós. Algumas dessas pessoas estão fisicamente perto, mas têm posições diametralmente opostas.

E essa tem sido, no meu ver, a grande riqueza do processo eleitoral: descobrir quanta gente eu adoro, e pensa tão diferente de mim. Pelo Twitter, pelo Facebook, pelos blogs, me pego debatendo apaixonadamente com pessoas em relação a quem, não fosse por isso, eu não teria divergências sérias. E descubro como aumenta meu respeito por elas, na medida em que divergimos e continuamos capazes de nos entender em todo o resto.

O outro é o outro, complexo e distinto de mim. Essas pessoas são meus amigos, meus colegas de trabalho, de faculdade, de colégio, adestram cachorros, praticam corrida. Tenho algo em comum com cada uma delas. Mas a democracia me permite enxergar que, apesar desse algo em comum, estão ali outros. Fascinantes, assustadores, interessantes, únicos. Cujo voto vale tanto quanto o meu, cujas opiniões valem tanto quanto a minha, e que podem expressá-la livremente.

Esses outros votam no Tiririca, votam na Weslian, votam no Serra, votam no bispo Crivella, votam em quem quiserem, pelos motivos que os interessarem. E isso é uma expressão de quem são. Democracia é a chance de cada um ser e querer aquilo que lhe parece melhor.

Que me perdoem os totalitários, mas isso compensa, para mim, toda a eventual bagunça que ela possa causar.

 

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7 comentários sobre “Democracia

  1. Excelente !!!!

    Sem dúvida compensa sim, mas o que não pode acontecer é o fato das pessoas enxergarem a democracia como a “mãe” da liberdade, quando na realidade ela é um instrumento que, se bem empregado, auxilia na preservação do “estado de liberdade”.

    A democracia pode ser a solução para a evolução, mas se as pessoas não souberem utilizá-la de maneira inteligente, ao contrário do que muitos pensam, ela pode se tornar a ruína.

    No final das contas as pessoas são muito desinformadas e acabam “permitindo sem permitir” que os demagogos e espertinhos de plantão controlem a democracia e assim, ela deixa de ter a sua verdadeira essência, qual seja: igualar a influência de opiniões políticas independente de classe social.

    • Eu penso diferente, Bruna… Acho que a demagogia faz parte. É um dos “vícios” da democracia, mas faz parte. A coisa é pendular, hora vai prum lado, hora vai pro outro, e assim as pessoas vão aprendendo a ver as consequências de suas escolhas. Não existe escolha perfeita, que seja boa para todos – e é fundamental que de vez em quando haja gente ruim eleita, inclusive para dar base de comparação.

      À medida que uma democracia aprofunda suas raízes na sociedade, e passa a ser mais confiável, diminui o medo do estrago que um mal-intencionado possa causar. É o fortalecimento das instituições que interessa, e penso que hoje estejamos exatamente nesse caminho.

    • É o mesmo espírito, né, Rita? Eu tinha lido seu post logo que você publicou, e curti muito. Esses dias andei tendo umas discussões mais espinhosas com amigos, e achei que seria oportuno lembrar a eles que o que eu sinto por eles não muda com a opinião política. Sou fascinada com a diversidade, e penso que é nos deparando com a diferença que conseguimos sair do próprio umbigo, e crescer.

  2. Como disse o Ciro Gomes lá na Sala da Congregação da FDUFMG, em 1998 ou 2002 (não lembro direito, mas eu “tavo” lá), adaptando um conhecido ditado popular, “a democracia, mesmo quando é ruim, é boa”…

  3. Adorei! Curto e profundo!, E, nos faz rememorar o que estamos vivenciando, a tão conquistada democracia que tem conseguido muitas vezes nos irritar! Pé no chão, vamos administrar o nosso sonho que está sendo realizado….. Bjs. Tati.

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