Vagão para mulheres e transgressão

Foto: Patricia Villalba - Estadão

Vigora no Estado do Rio de Janeiro a Lei nº 4733/2006, que determina a existência de vagões de metrô exclusivos para mulheres, nos horários de pico. Não vou entrar no mérito da discussão sobre a validade das ações afirmativas para a solução das desigualdades que elas buscam amenizar. Minha questão aqui é outra.

A lei foi publicada em 23 de março 2006, e deu às empresas 30 dias para se adaptarem à determinação. Desde o primeiro dia, porém, ficou claro que o cumprimento da legislação pelos usuários não seria tão simples. Mais de 4 anos depois, o problema continua o mesmo.

Num primeiro momento, a explicação mais simples com certeza era o desconhecimento, e mesmo hoje, com certeza um dos motivos de boa parte do desrespeito à exclusividade feminina nos carros é a distração, combinada com a pressa.

Mas só a distração não explica a dimensão do descumprimento da lei.

Boa parte dos homens considera um absurdo existirem vagões exclusivos para mulheres. Esse, em geral, é o mesmo cara que acha absurdo haver assentos e filas reservados para idosos, deficientes e gestantes,  que considera que não há racismo no Brasil, e que faz piadinha dizendo que daqui a pouco a homossexualidade vai ser obrigatória. Provavelmente também acha que o homem branco heterossexual de classe média está em séria desvantagem no mundo, hoje.

O diagnóstico desse rapaz é umbiguismo e incapacidade de sentir empatia. É um mal relativamente comum,  e muitas vezes inócuo, caso tenham sido impostos os limites adequados pelos pais, pelos professores, pelas autoridades responsáveis por educar.

Esses que receberam limites podem até resmungar, mas quando instados a sair do carro, acabam fazendo, por medo de sofrer a sanção, e por respeito à lei – o que, convenhamos, é o suficiente para uma boa convivência na sociedade civilizada.

Mas há o outro tipo: são os que, além de não conseguirem se colocar no lugar do mais fraco, não aprenderam a respeitar as regras da boa convivência. Nem a lei os amedronta. Ou, ainda, amedronta, mas sua forma de reagir é transgredindo. Afrontam para se afirmarem, afrontam para receberem atenção, afrontam para desafiar a lei a chegar até eles. Afrontam porque não enxergam mulheres como iguais – são outros, inferiores, como negros, índios, gays. Ameaças em sua alteridade.

Esse é um macho acuado. Na sua ânsia de transgressão, invade o vagão das mulheres, senta nos lugares preferenciais e liga o rádio no volume máximo. Mantém as pernas abertas, e encara ostensivamente qualquer uma que ouse lhe dirigir o olhar. Ameaça quem o ameaça. Não vai bater em alguém do seu tamanho, vai bater naquelas que o lembram da sua própria falta, da sua pequenez, da sua incompletude.

Sua atitude funciona. Todas observam, remoem o ódio, a humilhação, a indignação, mas ninguém se move. A lei não está do nosso lado. Não há guardas no vagão, não há a quem se recorrer para impor ao troglodita a civilização. A cena se repete em diferentes vagões, em diferentes dias e horários: o macho afrontador, a mulher calada, o desrespeito.

As tentativas de reduzir a desigualdade ameaçam os tradicionais detentores do poder, e eles tentam reavê-lo no grito. Nosso silêncio indica que, infelizmente, ainda não conseguimos gritar de volta. É preciso que nos apropriemos do vagão de mulheres, do espaço público, das ruas, do mundo, é preciso que cheguemos à presidência de países e empresas, é preciso que adotemos nosso lugar de sujeitos desejantes, que têm voz, que podem.

Depois do meu post otimista, é preciso encarar que ainda há muito chão antes de podermos realmente poder. O vagão do metrô é só o começo.

 

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18 comentários sobre “Vagão para mulheres e transgressão

  1. Pode perceber que o controle, por parte dos segurança do metrô, só existe na parte mais sul da Zona Sul carioca: estações em Copacabana e na de Botafogo. Depois da de Botafogo não há segurança nenhum reforçando a lei.

  2. Ih, tá assim o vagão pra mulheres, é? Bem, não ando regularmente de metrô há alguns anos, desde que me aposentei. Mas até mudarem a estação de transferência para a Linha 2 do Estácio para a Central, não tinha visto abuso. Bem, cheguei a presenciar os “distraídos”, que de tão vaiados ao serem convidados a se retirar, devem ter ficados mais atentos…

    • A questão é que não deveria depender da vaia, né? A gente não é polícia, a gente não é fiscal do metrô, o vagão foi criado pra gente poder viajar em paz, sem preocupar com os salientes.

      Posso concordar que não é a melhor medida possível, mas foi implementada, é uma pena que estejam deixando virar letra morta.

  3. Quando eu estava trabalhando no Centro eu só havia respeito quando o segurança estava na estação. Era na Carioca, e era o vagão ideal pra eu usar, pra descer pertinho da saída no Estácio, Quando eu via um engraçadinho no vagão eu avisava! Algumas vezes o cara saía, mas muitos diziam: e daí? Nunca vi nenhum ficar, porque o cara pode ser valente com uma mulher só, mas quero ver ser valente no meio de um bando de mulheres olhando feio pra ele!!
    Mas quando ninguém reclamava, lá ia o bonitão no vagão das mulheres…
    É uma visão muito distorcida quando a minoria reivindica direitos, porque a maioria quer os direitos de minoria também… eles só querem TUDO!
    Você abordou grandes questões, que eu acho que vão levar muito tempo para serem ao menos, amenizadas… infelizmente.
    Beijos!!

    • Ah, eu confesso que tenho medo. Não é nosso papel fiscalizar isso, a gente acaba se arriscando um pouco. Aliás, foi exatamente por isso que criaram o vagão separado, né?

      É um problema aqui no Brasil, criam-se as medidas em resposta às reivindicações urgentes, mas depois que o olhar do público se afasta, tudo volta ao que era.

  4. Já arrumei tanta confusão em ônibus por causa de homens com assadura. Deus mio. Espero que essa lei seja cumprida. Que se espalhe pelo país.

    E parabéns pelo texto.

    Abraço!

  5. Ninguém falou que na hora do rush o vagão das mulheres fica vazio e os outros vagões ficam superlotados e cheios de mulheres. Os homens são obrigados a viajarem em vagões abarrotados enquanto o vagão das mulheres fica cheio de espaços vazios. É justo isso? Eu nunca fiquei me esfregando em mulheres nos vagões e agora sou punido sendo privado de viajar no vagão que eu quiser. Essa lei é injusta e inconstitucional porque discrimina uma pessoa simplesmente pelo fato de ser homem e o impede de viajar num transporte público como o metrô, que já era um caos antes da lei e agora ficou pior para os homens porque retira os homens de um dos vagões para espremê-los nos outros que já estão superlotados. Certamente o imbecil do Jorge Picciani não anda de metrô e é muito fácil para ele criar esta lei eleitoreira e absurda.

  6. Se cumprir as Leis é o nosso dever, ao menos o Metrô poderia se organizar melhor: 2 linhas, e trens da linha 1 com 5 vagões e outra com 6 vagões, voce para e espera a composição e quando chega as mulheres acham que estamos no vagão errado, porém erradas estão elas, porque para Saens Peña tem 5 vagões e Pavuna 6 vagões e Porque isso? Coloquem o vagão feminino no 1º carro senhores e não teremos mais confusões. Gostaria de fazer uma pergunta: toda noite quando aguardo o metrô para a Pavuna ou Saens Peña, vejo que para a Zona Sul em todos os trens o vagão de mulheres está cheio de homens e nenhum segurança fazendo média pedinso para eles sairem?

  7. Eu não posso dizer muita coisa, mesmo porque não faço uso desses serviços.
    Se quer exclusividade, comodidade e segurança compre um carro blindado e com uma motorista mulher, levando em consideração que o homem seja o problema.
    Caso o trânsito seja um novo problema devido os congestinamentos, enchentes,assaltos, pedágios e colisões, compre um helicóptero.
    Ou vão querer vias exclusivas para mulheres, vias pintadas de rosa para melhor caracterização?.
    Entendo que deveria separar de vez homens e mulheres, mesmo porque em horários de pico presumo que o vagão exclusivo para mulheres esteja lotado sendo assim vocês podem viajar no vagão não exclusivo as mulheres e o homem no caso teria que esperar, pois o mesmo não pode entrar no vagão feminino mesmo que vazio esteja, por ser considerado falta de respeito as mulheres.
    A vez que eu precisei fazer uso do serviço de ônibus, presenciei uma garota exibindo para seu amigo um pirceng em seu orgão genital.
    Não é de se estranhar garotas mexendo com os homens nas ruas, será que eu estou ficando louco ou 18 mulheres pediram para ficar com um amigo meu em uma festa?
    Geralmente mulher feia e complexada que devem fazer uso desse vagão, mesmo porque as que malham para manter a forma elas querem mesmo é se sentir femininas, fazem isso não para chamar a sua atênção e sim a dos homens, ou onde você mora as mulheres andam apenas de saias longas?.
    O que eu estou dizendo não é o que eu penso é o que eu vejo nas ruas e em todos os lugares.
    Acontece comigo, acontece com você, acontece com todos nós em todos os lugares, creio eu que vagões exclusivos deveriam ser designados a portadores de qualquer tipo de deficiência e em especial para idosos, mesmo porque são poucas as pessoas que abrem mão dos seus acentos para oferecer a um idoso ou deficiênte.
    A realidade é uma só, você conhece quantas meninas de 16 anos menor de idade que são virgens?.
    A lei não permite que menor de idade tenham relações sexuais, será mesmo que todas foram estupradas?, é dizer que mulher não sente prazer, que tem relação apenas para se reproduzir, tenho uma amiga que foi mãe aos 12 anos de idade e entendo que a maioria das pessoa também conheçam alguma.
    Será que exclusividade é a solução?, que seja, mas que seja integral, mulheres no lugar de mulheres e homens no lugar de homens, um não deve invadir o espaço do outro.
    Se as mulheres querem um vagão exclusivo deveria servir para todas, separando assim homens e mulheres, igual banheiro cada qual com a sua privacidade.
    Fora isso acredito que homens e mulheres devem compartilhar do mesmo espaço, dos mesmos confortos e dos mesmos problemas.
    Mesmo porque, julgar as pessoas pelo gênero é uma forma de pré determinar que todos daquele gênero tenham as mesmas atitudes.
    Se seguirmos esse padrão futuramente teremos um vagão exclusivo para brancos, outro exclusivo para negros e outro com muito mais conforto e espaço para extrangeiros e assim por diante.
    Se você mulher quer um espaço exclusivo para seu gênero, há de se ficar trancada no banheiro feminino, caso contrário há de se respeitar as diferenças e exigir o devido respeito, sendo que cada qual seja responsável pelos seus atos.
    Nos aviões deveria ter os mesmos conceitos, uma divisória separando homens e mulheres, um corredor de homens e outro de mulheres, mesmo porque é perigoso algum homem atacar a mulher que esta sentada ao seu lado, como se o homem fosse um animal selvagem!
    Essa é a minha opinião, acho que ou separa de vez ou não separa ninguém, para entender-mos que todos somos iguais perante a lei e todos temos os mesmos direitos e deveres perante a lei.
    abraço!

    • Vc anda de metrô e as mulheres ficam se esfregando em vc, é isso?

      Não, né? Pois é.
      Já o caso contrário é verdadeiro.

      Eu já cansei de ser encoxada no metrô e tenho certeza que não apenas eu. É um fato recorrente. Reservar uma vagão para mulheres resolve o problema? Não. Mas, de imediato, resolve a situação.

  8. Eu acho e tenho certeza que o Jorge Picciane nunca andou de trem e nem de metro , porque isso e p/ pobres e pessoas honestas .Porisso ele inventou essa lei que é gonivente com o governador para esconder o principal problema que é a falta de transpostes publicos . Se nao tem trem nem pra homens entrar na hora do rush , como vai ter vagoes pra mulheres .
    Faça me o fvr , como tem exclusividade em um sistema que nao funciona , nunca fncionou e nem vai funcionar por causa da mafia dos transportes e da ganancia dos administradores. ISSO E TAMPAR O SOL COM A PENEIRA. Isso e retrogado e discriminatorio .Se tem p/ as mulheres tambem tem que ter p/ os homens , igual banheiro de homens e banheiro de mulheres.
    E a maioria que nunca se aproveitou de mulheres em trasportem publica e tem que pagar pela minoria .DAQUI A POUCA VAI TER ONIBUS SO PRA MULHERES Ja que nao tem nem p/ os trabalhadores , principalmente na zona oeste .A Super Via onde dizem que a mulher do governador e a advogada da empresa , tao deitando e rolando , ao inves disso porque nao coloca trens com ar no verao , porque nao colocam o intervalo e 5 min. em 5 min. no horario do rush .
    POLITICOS FAÇAM PRIMEIRO O TRANSPOSTES PUBLICOS FUNCIONAREM DIREITO P/ DEPOIS INVENTAREM EXCLUSIVIDADES .PLANO ELEITOREIRO DO PICCIANI e as mulheres bobas acreditam que tá sendo respeitadas,na verdade tá sendo agredida por quem tem o direito nobre de nos representar que sao esses politicos marqueteiros e maqueadores dos sistemas .
    A passagem da Super Via aumentou , ja que eles gostam de respeitar leis , então cadê as escadas rolantes nas estaçoes da zona oeste ? vcs ja viram deficientes fisicos pegarem o trem em realengo e djacencias ? claro que nao , porque nao tem plataforma de acesso pros mesmos .
    A escada de Realengo é altissima , minha mae que é idosa nao consegue subir aqueles milhares de degraus .Politicos vcs que derrespeitam leis e impoem as para nos contribuintes.Pega o trem Santa Cruz no horario do rush Picciano , se vc conseguir entrar , vc pode criar mais leis de exclusão .

  9. O ART 5°da CF no seu § 1°diz- homens e Mulheres são iguais em direitos e obrigações nos termos da lei, a igualdade ou (isonomia) material fala em tratar desigualmente as pessoas que em situação desigual, geralmente usada para favorecer alguns grupos que estejam em posição de desvantagem válida se for pautada por motivo lógico e justificável, ex: destinação de lugares preferencias para gestantes, idosos, e mulheres com crianças de colo,bem como portadores de necessidades especiais, não vejo a mulher que esteja gozando de saúde, e não estando em estado puerperal deva ser tratada como uma pessoa que esteja em desvantagem em relação ao homem ao ponto de necessitar de um vagão exclusivo, mesmo em horário determinado, tendo com justificativa o fato desses transportes circularem lotados. sendo que o transtorno atinge a todos. e muito menos pela presunção de que nesta situação podem ser vítimas de abuso, visto que a priori são utilizados por pessoas de bem, sendo então na minha opinião, uma afronta a um direito constitucional, com a palavra os juristas de plantão!

  10. Pingback: Feminismo e privilégio « A realidade, Maria, é louca

  11. Sou o primeiro a defender o assentos preferencial para idosos, gestantes, deficientes e pessoas com criança de colo porque, de fato, essas pessoas estão em desvantagem clara.
    Mas, com relação ao vagão exclusivo para mulheres, eu discordo. Acho que é um privilégio às mulheres e uma punição antecipada aos homens, como se todo homem fosse um estuprador.
    Seria mais razoável se houvesse, também, vagões exclusivos para os homens porque, tão constrangedor quanto sofrer abusos é ser acusado de algo que não se faz.
    Mas eu vejo que as “minorias” não buscam igualdade, mas sim privilégios, sob o argumento de que foram historicamente oprimidas e perseguidas.
    E agora eu tenho que pagar a conta do machismo do meu bisavô? Isso é ridículo!
    Eu quero igualdade…em direitos e deveres.

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