“Piada Inocente”

“Preto só come carne quando morde a língua”.

“Preto só toma laranjada quando tem briga na feira”.

“Preto, quando não caga no começo, caga no final”.

Sim, são piadas racistas. Não, eu não acho a menor graça nelas, e imagino que a maior parte das pessoas que estão lendo esse texto também não ache. Mas há quem ache muita graça, morra de rir, conte pros amigos – há alguma dúvida de que essas pessoas são racistas?

Uma polêmica recente envolve um cara no Twitter que linkou essa imagem (clique para aumentar):

Não vou entrar no mérito de quem é, não vou me referir à discussão que aconteceu, nem vou tentar descobrir quem está certo ou errado. As minhas perguntas são: o que você pensa quando vê essa imagem? Você tem alguma dúvida de que ela é preconceituosa? De que só dá pra achar graça nessa piada se você compartilha desse preconceito?

O Alex Castro tem um texto sobre a graça das piadas que ajuda a entender o que quero dizer: Porque o Humor é Engraçado. No texto há um trecho em inglês, e segue uma tradução livre:

“A teoria que eles apresentam: ‘A risada e a diversão resultam de violações que são simultaneamente percebidas como inócuas’. Isto é, as pessoas percebem uma violação ‘à dignidade pessoal (p.ex., pastelão, deformidades físicas), às normas linguísticas (p. ex., sotaques diferentes, inadequação vocabular), às normas sociais (p. ex., bestialismo, comportamentos desrespeitosos)’ enquanto, ao mesmo tempo, reconhecem que a violação não representa uma ameaça a elas ou a sua visão de mundo”.

Então, voltando à piada do Mastercard: se um cidadão de Andrômeda, planeta onde os seres são assexuados e se reproduzem por brotamento, se deparasse com essa piada, ele acharia graça? Não, porque, para ele, a piada não faz sentido, e não representa nenhum tipo de violação. Ele não conhece os pressupostos.

Por outro lado, por que é que as piadas sobre negros não têm graça para quem não é racista? Porque elas representam uma violação, sim, mas essa violação não é percebida como inócua. Ela é agressiva demais para ter graça numa sociedade em que o preconceito racial é um problema sério, disseminado e criminalizado, e em que as pessoas que se reputam “de bem” não querem ser reconhecidas como racistas.

A piada do Mastercard tem graça para quem acha que ela é inócua. Para quem acredita que dizer que mulheres são interesseiras e materialistas não é um preconceito odioso, e que é só uma pequena violação, inócua, insinuar que elas se aproximam dos homens atraídas exclusivamente por seus cartões de crédito.

Da mesma forma, a piada do Rafinha Bastos de que o homem que estupra mulher feia não merece cadeia, mas sim, um abraço. A afirmação de que um estupro é bom para uma mulher feia, que de outra forma não obteria sexo, é percebida por ele como uma violação apenas inócua.

O meu problema com isso tudo? É que as piadas machistas ainda sejam percebidas como inócuas, num país em que as estatísticas sobre violência contra a mulher são alarmantes, e em que as mulheres ainda ganham substancialmente menos que os homens. Ou que se riam de piadas homofóbicas, mesmo com os casos de agressão contra gays cada vez mais comuns.

Rir de uma piada preconceituosa revela nosso preconceito. É possível alegar ignorância – muitas vezes é difícil perceber o preconceito de um piada, quando não estamos acostumados a prestar atenção. Mas dizer que ela é “inocente” quando esse preconceito é apontado por alguém é só uma forma de fingir que ele não está lá, e, com isso, perpetuá-lo.

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15 comentários sobre ““Piada Inocente”

  1. Deb,

    Ao ler seu texto não pude não lembrar de uma situação que aconteceu comigo esses dias. Um cara do meu serviço me mandou um link do CQC (famoso por suas piadas “ínócuas”) com a seguinte questão “E se seu filho fosse usuário do Twitter?” – http://www.youtube.com/watch?v=7mxpJVYAKrU&feature=player_embedded

    Ele chorava de rir com as respostas e eu com a maior cara de tacho não vendo graça nenhuma naquilo. Não consigo ver graça em alguém tirando sarro de outra pessoa visivelmente sem conhecimento do assunto. Não consigo mesmo. #prontofalei

    • Nossa, Fê, pensei exatamente a mesma coisa sobre esse vídeo quando vi o pessoal do trabalho se acabando de rir. Também não enxergo a menor graça em piada que se vale de preconceito. “Hahaha, esse pessoal pobre e ignorante não sabe nem o que é Twitter”.

      Por outro lado, poderia ser uma piada interessante se abordasse também pessoas “instruídas”, perguntando sobre coisas de internet que elas provavelmente não conhecem (tipo, sei lá, “4chan”, “Grooveshark”, “Google Plus”), para demonstrar como todo mundo quer dar opinião pro repórter, mesmo sem fazer ideia do que ele está falando…

    • O problema não está no fato de saber ou não o que é twitter, e sim assumir que não sabe antes de dar qualquer opnião. Custava assumir e perguntar de que se tratava o assunto antes de responder?

      É o grande mal das pessoas quererem dar opnião sobre aquilo que não conhecem.

  2. ‘Quem gosta de homem é viado. Mulher gosta é de jóia.’ Numa boa, Debora, acho que o critério é o seguinte: só dá para rir de situações que resultem de uma escolha. Por isso, esse video sobre os ‘usuários de twitter’ não tem a menor graça. É uma brincadeira com a ignorância, e só pode agradar a quem confunde humor com crueldade. Mas vamos ser honestos: ver as mulheres como seres materialistas e interesseiros não é preconceito. Muitas são assim mesmo, como os advogados, nas piadas de advogado, são gananciosos, e eu estou me lixando se alguém conta uma piada que contenha um ‘preconceito” contra os advogados perto de mim. Aliás, eu quero que me contem, gosto muito de algumas, acho outras imbecis, como qualquer piada, de modo geral, mesmo sendo eu um advogado. Aliás, todos os judeus, nas piadas, são pão-duros, todos os padres, pedófilos, todos os taxistas, grosseiros, todos os políticos, corruptos, todos os juízes, arrogantes, etc. E a piada faz sentido precisamente porque estas condições (que não surgem do preconceito, mas o preexistem, de fato, não de modo absoluto, obviamente, mas com frequencia suficiente para que possamos presumir que nosso interlocutor compreenderá a premissa (e.g., toda loira é burra) e, portanto, o desfecho da piada) são resultado de uma escolha (a loira, por exemplo, nas piadas, sintetiza o ser humano excessivamente vaidoso, e costuma ser mais distraída que burra, precisamente porque ocupa demais sua atenção com o cuidado da própria aparência: isso torna a piada de loura, no fundo, engraçada: ela escolheu aquilo, e isso está presente, embora ocultamente, na premissa da piada). Bom, acho melhor não explicar demais, teoria do humor é meio difícil, não conheço muito. Mas em essência, as piadas racistas que tem como premissa exclusivamente a cor da pele são, como qualquer outra piada que não é construída sobre uma escolha feita por seu protagonista, piadas sem graça. E por isso devem ser esquecida, não porque sejam más ou perpetuadoras de um preconceito ‘do mal’. Uma piada com um negro, ou um homossexual, ou um advogado, sempre que contiver uma premissa baseada numa escolha (por exemplo, a piada da moça que não tinha pernas e ficava pendurada na árvore) será (ou poderá ser, claro, tudo a depender de outros fatores) engraçada, e não deve ser condenada apenas por versar sobre um negro, um gay, um padre. Anyway, essa é uma longuíssima conversa. Um abraço.

    • Antônio, você comparou a piada com as mulheres com as piadas de advogado, e essa é uma boa comparação para falar da diferença.

      Como você mesmo disse, as boas piadas são aquelas que riem de escolhas. Acrescento mais um critério aí: as boas piadas são aquelas que riem de condições que não são inferiorizantes.

      Ser advogado é uma escolha, e eu confesso que nunca ouvi falar de alguém sofrendo preconceito – efetivo, prejudicial – por ser advogado. Advogado não ganha menos que ninguém. Não apanha na rua por ser advogado. Não é impedido de entrar em lugar nenhum.

      Por outro lado, ser mulher não só não é uma escolha, como é um atributo que traz prejuízo. Mulheres sofrem mais violência, mulheres ganham menos, mulheres sofrem uma série de preconceitos profissionais. Da mesma forma que os gays e os negros, pra citar os exemplos mais comuns. Fazer piada com quem sofre preconceito real, nocivo, é apenas aprofundar o preconceito

      É claro que o humor está baseado em estereótipos e preconceitos, e o texto do Alex que eu linkei aborda isso. Mas o que estou tentando apontar no texto é que o humor não é neutro.

      As piadas machistas se perpetuam porque o preconceito contra a mulher ainda é visto como algo menor, que não chega a despertar repugnância. E o que estou tentando dizer é que não é. É grande, é pernicioso, é relevante, e apontar o machismo nas piadas é só mais uma forma de alertar para a existência dele.

      • Mulheres não sofrem mais violência. Homens se matam uns aos outros muito mais do que mulheres. O que acontece é que algumas mulheres sofrem violência pelo fato de serem mulheres, o que é absolutamente absurdo. (Também acontece com homens, crime de honra acontece nos dois casos).

        Mas enfim, eu achei a briga toda lamentável, absolutamente lamentável. A pessoa que postou a piada escorregou feio, e algumas outras pessoas se apressaram pra chamar logo o cara de machista.

        A piada é ruim, e acho mesmo que seja machista, mas não acho que seja muito machista. Afinal, ela não diz que todas as mulheres se ganham com dinheiro (algumas com o olhar, outras com um bom papo etc). E mulheres que se ganham com dinheiro existem mesmo. Não achei graça porque ela é muito velha 🙂

  3. A propósito:
    Logo depois de ser empossado, um juiz, solteiro, assume uma Comarca na divisa com Goiás, numa cidadezinha onde não havia nada para fazer. Os dias vão se passando, o Juiz ali, solteiro, até que um dia o escrivão o convida: ‘ô Excelência, o sr aí solteiro, não precisa disso não, vamos ali comigo hoje à noite, na beira do rio…” e o Juiz, consciente de sua autoridade, deu um esporro no escrivão, “Com quem o sr acha que está falando!?? até parece que eu, um Juiz, vou ficar frequentando ‘beira de rio’ por aí. coloque-se no seu lugar ou mando lhe prender!”. E o tempo foi passando, de vez em quando o escrivão ia lá e convidava de novo, e levava outro esporro, mas ele continuava, convidando, já que o juiz nunca deixava a Comarca, pelo excesso de trabalho, e começava a ficar tenso etc. Um belo dia, uns 10 meses depois de tomar posse, o juiz não aguenta mais a tensão e aceita o convite escrivão. De noitinha, os dois saem do fórum e vão direto pra beira do rio. Chegando lá, tem uma fila enorme: tudo quanto é cidadão da Comarca ali, e o escrivão já chega falando alto: ‘Olha sua Exa aqui, deixa o juiz passar… vamos abrindo caminho aqui… dá licença, olha sua Exa!” e o povo vê o Juiz e vai abrindo caminho “olha aí o sr juiz… por favor Exa… por aqui exa… boa noite Exa” e o juiz vai passando na frente de todo mundo, até chegar na beira do rio. Ali, ele vê uma mulinha parada, de costas para a multidão, bebendo uma aguinha no rio, no maior sossego. Ele olha a mulinha, olha o escrivão, olha a mulinha de novo, hesita, até que o escrivão dá um tapinha nas costas dele, solta um “pode ir, exa”, e ele acha aquilo meio estranho mas pensa “bom, no interior é assim mesmo, né, caipira não liga para nada, mas eu estou precisando, não tem jeito, vai ter que ser aqui mesmo. Então ele se adianta, desamarra o cinto, abaixa as calças, respira fundo e CRAU na mulinha. Na mesma hora em que ele CONSUMA o fato, ele escuta um ‘NOOOOSSA SENHOOORA” na multidão, todo mundo cochichando, ele vira para trás, sem interromper o serviço, e o escrivão já está do lado dele, com o olho arregalado:

    “ô Excelência, a mulinha serve só pra atravessar o rio… o puteiro fica do outro lado”.

  4. Debora: advogados podem, sim, ganhar menos (ou não ganhar nada), ser barrados (em delegacias), e até apanhar por aí (em especial, criminalistas assíduos na mídia). Mas é uma escolha. O criminalista sofre inúmeros preconceitos, justamente por ser criminalista (isto é, por ter feito a escolha de se envolver com autores de delitos etc) e as piadas que decorrem daí são baseadas em preconceitos inferiorizantes sim (embora a gente já esteja condicionada a só enxergar um preconceito quando ele é histórico, como no caso dos negros e mulheres) e nem por isso deixam de ser engraçadas. Os advogados, obviamente, lutam contra o preconceito, na prática: acessam a corregedoria contra um policial que lhes atrapalha em uma conversa com o preso, comunicam ao Tribunal a atitude de um escrivão que atrasa a autuação de um pedido de liberdade provisória na sexta feira etc. Mas não se ofendem, ou não deviam se ofender, com eventuais piadas a respeito, mesmo que elas traduzam os mesmos preconceitos que interferem negativamente na forma como se desenvolvem suas atividades cotidianas, pois isso, com todo respeito, é coitadismo, e é inócuo, se o propósito é o de ver mudar essa mentalidade. Alguns advogados criminalistas confundem-se com os próprios clientes, isso é comum, apesar de ser a exceção. E o preconceito se baseia nisso, assim como as piadas de criminalista vão generalizar o preconceito para todos os advogados, e não apenas os bandidos. E por isso são boas piadas (ou quase). Essa é uma interessante, encontrei na rede agora:

    ‘O instituto Pasteur decidiu que ao invés de usar ratos em pesquisas eles usariam advogados, eles tiveram três razões para decidi-lo: 1. Existem no momento mais advogados que ratos. 2. Os pesquisadores não ficam tão ligados emocionalmente aos advogados do que eles ficavam com os ratos. 3. Não importa o que você tem, tem coisas que nem os ratos fazem’.

    O preconceito que se revela através dessa piada é o mesmo que produz, sim, situações complicadas para os advogados, desconfiança de clientes etc. Mas nem por isso qualificamos estas piadas como piadas preconceituosas.

    Com relação às mulheres, acho que precisamos entender o seguinte: uma boa piada sexista não ironiza a condição de mulher, per se, mas apenas certas escolhas comuns em mulheres (relativas, especialmente, à vaidade, ou ao fato de, mesmo traídas, permanecerem com os maridos, ou, ainda, relativas a certas maldades que as mulheres praticam umas contra as outras, pequenas invejas, enfim, circunstâncias próprias ou comuns às mulheres, ou a parte delas, mas que constituem o imaginário a respeito da condição feminina). Um exemplo:

    “Uma mulher mal-encarada, antipática e muito, muito feia entra nas Lojas Colombo com duas crianças. O gerente da loja, querendo ser gentil, pergunta-lhe:
    — São gêmeos?
    A mulher, fazendo uma careta, que faz com que fique ainda mais feia, diz:
    — Não, paspalho! O mais velho tem 9 e o mais novo tem 7 anos. Por quê? Você, realmente, acha eles parecidos, seu idiota?
    — Não… — diz o gerente — Eu só não pude acreditar que a senhora, feia desse jeito foi comida duas vezes!”

    Essa é uma piada sexista? De certo modo, sim. Mas não é uma piada sobre mulher. E, aliás, nem é uma piada sobre a feiúra. É uma piada sobre a grosseria. Se mulher, mesmo sendo feia, e mesmo sendo mulher, tivesse agido civilizadamente com o vendedor, o desfecho não teria a menor graça. Aliás, nem sei se tem, não é uma boa piada, mas é um exemplo de piada com mulher, e feia, ambas condições que não são escolhas. mas aí é que está: a piada não se dirige ‘contra’ a mulher nem contra a feiura: a piada ironiza a grosseria, e por isso, creio, é válida, se aplicamos o critério da crítica da escolha. Do mesmo modo, uma piada que descreve a fúria de uma mulher de TPM não se dirige contra a mulher, nem contra a condição biopsíquica da menstruação: ela se dirige contra um temperamento característico, evitável ou administrável por meio de uma escolha.

    Mais uma:

    A mulher entra na loja procurando um vibrador.
    — Pois não, senhora, temos de todos os tipos, cores e tamanhos — diz o atendente.
    — Quanto custa aquele maior, todo vermelho, ali no canto?
    — Perdão, senhora, mas aquilo é o nosso extintor de incêndio.

    É uma boa piada. E não se refere à mulher, mas ao excesso de calor de uma mulher. Se o protagonista fosse um homossexual, seria uma piada homofóbica? Naturalmente, não. O objeto da piada seria o mesmo: a excessiva disposição sexual do protagonista (que, embora não seja propriamente uma escolha, está sujeita a seu controle).

    Outra espécie de piada que podemos usar como exemplo é a de corno. Existe aos montes. E o corno escolheu? não. É inferiorizante? Sim, claro que é. Mas ninguém levanta uma bandeira para proteger o pobre do corno. Por que? A piada de corno só é engraçada quando o corno, por exemplo, fica com medo do amante musculoso no armário e traz um cafezinho para ele, fingindo que não entendeu o que aconteceu, ou autoriza a traição quando descobre que o amante da mulher é milionário ou até quando ele come o amante disfarçado de cabra no canto do quarto e repete para a mulher “mas o cu dessa cabra que sua tia te deu é bom demais, vou ter que comer de novo”, até que o amante grita “puta que pariu, vai gostar de cu de cabra assim na casa do caralho”, que na verdade é uma piada de amante (o amante disfarçado que faz uma escolha de não se revelar para que o marido traído o descubra, enquanto o marido traído finge que acredita que ele é uma cabra e mete-lhe a bronca), e não de corno, capisce?

    Voltando à questão de fundo: uma piada sexista não é engraçada em razão da condição da mulher; ela pode ser engraçada se versar sobre uma escolha típica desta ou daquela mulher, por exemplo, a piada da dona de casa de classe média que vira para o porteiro e pergunta: ‘mas o senhor é pau de arara?’ e o porteiro, numa boa, sem se ofender, vira para ela e afirma: ‘olha, dona, se é de arara eu não sei, mas é DESSE TAMANHO’. Aliás, essa é uma piada de porteiro, posição que, aliás, como a própria piada demonstra, nada tem de inferiorizante (a não ser na cabeça da juventude de classe média que sente culpa por ter nascido em uma condição econômica – não digo superior, nem melhor, mas apenas mais abonada – que a do porteiro).

    Uma questão mais delicada está nas piadas ‘de cor’. Vc deve se lembrar da piada envolvendo jogadores de futebol, loiras e o King Kong. Tive que concordar com um argumento, no caso, do Danilo Gentili, de que chamar um negro de macaco é tão grave quanto chamar um sujeito alto de girafa. Ambos são animais feios e a qualificação de alguém com os atributos de um animal é igualmente ofensivo. Situação completamente diferente seria chamar-se alguém de porco, pelo fato de ser pobre. Nesse caso, a miséria traduz uma posição de inferioridade, ou melhor, de submissão involuntária, e não pode ser objeto de humor (a não ser, é claro no caso do pródigo, mas aí estaríamos rindo da prodigalidade, e não da miséria, que nada tem de engraçada). Ser negro, todavia, per se, nada tem de inferior. Quando alguém procura proteger um indivíduo contra a qualificação de “negro” ou “preto” ou mesmo “crioulo”, como se tais qualificações fossem mais ofensivas que “vara-pau”, “girafa”, “baleia” etc, é esse alguém, o “defensor” do negro, quem está atribuindo sentido negativo e ‘inferiorizante’ para uma simples diferença ‘cromática’, que não devia, pelo menos do meu ponto de vista, que julgo absolutamente igualitário em termos raciais, ser considerado em nada ofensivo. E essa qualificação deve ser absolutamente irrelevante, se você realmente compreende todas as raças em uma dimensão de verdadeira igualdade. É óbvio que piadas como as que vc citou “preto só sobe na vida quando o barraco explode etc’ nem deviam se aplicar a negros: elas são ‘piadas’ sobre a miséria, de forma pura e simplista, e por isso mesmo nem podem ser consideradas autênticas ‘piadas’.

    Bom, neste ponto, eu preciso ir além. A tese segundo a qual uma piada tem graça porque representa uma violação não me parece fazer o menor sentido. Uma piada tem graça quando ela demonstra a imensa capacidade do ser humano de fazer a escolha errada na mais banal das situações. Essa é a chave do humor. Não tem nada a ver com ‘violação’, penso. Mas o que me parece mais importante compreender é que não se pode querer atribuir uma função ideológica ao humor. Se compreendida a sua dimensão quase didática (que, quando é efetivo, ensina uma verdade universal), o humor não se presta a ideologias. No caso da piada do estupro, embora não a considere particularmente boa, me parece válida, dentro de minha premissa. E pela seguinte razão: quando um sujeito diz que uma mulher feia devia agradecer pelo fato de ser estuprada, ele não está, nem de longe, fazendo qualquer elogio do estupro. Ele está percebendo, e tentando ensinar, que, obviamente, os atributos físicos não se referem apenas à vida sexual das pessoas: o fato de serem feias ou belas não cumpre a função exclusiva de determinar a intensidade de sua vida sexual (por isso mesmo, a mulher feia, quando estuprada, chama sim a polícia, e obviamente não se sente satisfeita com isso, afinal, os atributos físicos de um ser humano vão muito além de serem meros petrechos para a sexualidade). Acredito que não enxergar isso é desperdiçar o que a piada tem de melhor: a capacidade de evidenciar valores, de certo modo e para certos grupos, universais. A piada demonstra, muitas vezes, exatamente o contrário daquilo que ela aparenta ‘inferiorizar”. As piadas de negros, ou de homossexuais, ou de mulheres, em minha opinião, são a antítese da violência: elas servem precisamente para evidenciar, embora indiretamente e por meio da reflexão, a igualdade material, e só se tornam motivo de acirramento das diferenças na exata medida em que mulheres, negros, homossexuais e progressistas de maneira geral se põe contra as piadas e as acusam de inferiorizar este ou aquele grupo. Na verdade, é apenas aí, quando os defensores deste grupo apontam a suposta inferiorização, que estes grupos, essencialmente iguais a qualquer outro, são submetidos a um processo discursivo de inferiorização.

    Desculpa escrever tanto. Espero ter sido claro. Acredito fielmente nisso, Debora, e acredito que esse é um caminho um pouco mais claro para a realização de uma igualdade verdadeira.

    Bom feriado e um fraterno abraço.

  5. Anthon:
    * pq vc nao cria um blog pra vc ao inves de escrever toda essa linda teoria aqui? tantas piadas “engracadas” e tenho certeza q vc conquistaria inumeros fans/seguidores/whatever;

    * deixa eu imaginar: vc eh homem, branco e hetero, certo?

    Nao sei se o seu caso eh de despertar mais preguica em relacao a especimes “exemplares” da humanidade ou simplesmente ter um fio de esperanca e dizer: Doutor, vai fazer umas leituras do assunto antes de desfiar suas “teses”.

  6. Anthon:

    vc disse: “No caso da piada do estupro, embora não a considere particularmente boa, me parece válida, dentro de minha premissa. E pela seguinte razão: quando um sujeito diz que uma mulher feia devia agradecer pelo fato de ser estuprada, ele não está, nem de longe, fazendo qualquer elogio do estupro. Ele está percebendo, e tentando ensinar, que, obviamente, os atributos físicos não se referem apenas à vida sexual das pessoas: o fato de serem feias ou belas não cumpre a função exclusiva de determinar a intensidade de sua vida sexual (por isso mesmo, a mulher feia, quando estuprada, chama sim a polícia, e obviamente não se sente satisfeita com isso, afinal, os atributos físicos de um ser humano vão muito além de serem meros petrechos para a sexualidade). Acredito que não enxergar isso é desperdiçar o que a piada tem de melhor: a capacidade de evidenciar valores, de certo modo e para certos grupos, universais.”

    Especificamente no caso da “piada” do estupro, faca a gentileza de evidenciar de quais valores universais dos quais vc lembra ao citar a referida piada, e, como vc mesmo cita, valores esses q sao universais de alguma maneira e para alguns grupos?

    Dentre diversos pontos, esse efetivamente nao ficou claro.

  7. Referente as piadas…
    Liguem a TV no canal aberto, e a realidade são mulheres nuas, e pessoas que se dizem inteligentes ganhando dinheiro em cima de pessoas sem cultura e informação, é que o povo brasileiro gosta…

    Uma das frases sobre preto, sempre ouvi pessoas antigas dizerem, mas usando algum fundamento… preconceito? no caso de quem eu ouvi é a realidade que ela viveu… e prova com fatos…!
    Mas nenhuma digna de rir…

    Pessoas inferiores?
    Não sei.. mas podemos usar a piada do careca, tem uns carecas que fazem piadas com eles mesmo, outros se vc citar qq coisa pode ganhar uma briga!

    Agora Deborah… tem muita mulher que acaba com a nossa imagem, isso não dá direito dessas piadas infames, mas… dá abertura!

    Como uma menina do meu trabalho diz, pessoas… os animais são tão mais inteligentes!

    • Há uns dois anos, vi uma palestra de Ariano Suassuna em Mossoró e a resposta dele a esse raciocínio é essa:

      Ariano conta que seu cunhado dizia que cachorro não gosta de osso, mas sim de filé. Que o cachorro só se delicia com o osso porque apenas isso lhe é ofertado. E disse que as palavras do seu cunhado eram: “[…] se lhe derem osso e filé veja qual o cachorro escolherá.”, (obviamente o filé). A partir desta história, Ariano Suassuna compara o cachorro ao povo brasileiro, dizendo que nosso povo rói ossos apenas porque só isso lhe é ofertado, que se dermos filé (cultural, musical, intelectual, etc), isso a população escolheria e abandonaria os ossos que tanto lucram com nossa população.

      • E vem cá, quantos programas realmente bons já sumiram da grade por absoluta falta de audiência?
        Lembram de Sexo Frágil?

        Quantas pessoas assistem as entrevistas do Abujamra na Cultura? Tá lá, passando, TV aberta, há décadas, e o cachorro brasileiro continua roendo o osso do outro canal.

        Não é bem assim não.

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