Feminismo e privilégio

Ontem foi Dia Internacional da Mulher, e não tive vontade de mandar ninguém enfiar rosa em lugar nenhum – aliás, consegui fugir de todas as rosas que ameaçaram cruzar o meu caminho. Mas não sei se as pessoas perceberam meu sorriso amarelo quando agradeci pelos parabéns, até porque, aparentemente, não tenho do que reclamar.

Trabalho numa empresa que assumiu um compromisso com o empoderamento das mulheres, e vejo isso na prática: onde trabalho, há mais gerentes mulheres do que homens. Todos nós que não temos cargos de confiança ganhamos a mesma coisa, e não percebo discriminação nenhuma com relação à distribuição do trabalho entre homens e mulheres, ou o reconhecimento dos méritos.

Na minha vida acadêmica e profissional, ser mulher nunca foi menos-valia. Na minha turma de faculdade, metade composta por homens e metade, por mulheres, o prêmio de destaque acadêmico foi para uma mulher, minha amiga, e a oradora da turma fui eu.

Consegui o que queria, cheguei onde desejava. Casei quando quis, com quem quis, e só vou ter filhos quando quiser.

Tudo isso é indício de que o movimento feminista foi bem-sucedido. Eu usufruo da luta e do trabalho de quem veio antes. Olhando de fora, daria até para dizer que as conquistas acabaram, que não há mais sentido, que a igualdade é uma realidade. Mas: 1) eu vivo num ambiente protegido, sou branca, participo de um estrato sócio-econômico altamente privilegiado; e 2) nem esse lugar privilegiado me protege completamente.

É claro que é tudo muito mais sutil. Como o racismo, o machismo também aprendeu a ser insidioso. É feio dizer que mulheres são inferiores. Mas as estruturas de poder estão aí, se renovando para não perder o lugar.

Faz parte da manutenção disso convencer as mulheres de que precisam de milhões de tratamentos de beleza para expiarem a culpa pelo envelhecimento. Impor juízos de valor sobre aquelas que praticam a liberdade sexual nos mesmos termos que os homens sempre praticaram. Bloquear a discussão sobre o aborto, mantendo a criminalização e gritando “assassinato!” a cada vez que se pretende voltar o foco para a autonomia das mulheres sobre o próprio corpo.

O machismo se revela no cotidiano. Na divisão estereotipada dos papéis de gênero. Na atribuição de características “intrínsecas” a homens e mulheres, como se essas categorias fossem muito naturais. Na condescendência e no paternalismo. Na hipersexualização do corpo feminino, que tem que andar coberto, porque “desperta desejos inconfessáveis”. Na tentativa de chamar de meritocracia a “coincidência” de que a maior parte das posições de poder é ocupada por homens.

Mulheres continuam morrendo no parto, sofrendo violência doméstica e ganhando substancialmente menos que os homens, em média. É por isso que não, não é suficiente dar a uma mulher uma rosa e os parabéns – pelo quê, mesmo? – e reforçar meia dúzia de estereótipos sobre “feminilidade”, “fragilidade” e “sensibilidade”. O que nós queremos é igualdade.

P.S.: Ontem foram publicados vários bons textos lembrando a origem da data, as tantas lutas feministas que culminaram no reconhecimento de uma série de direitos. Algumas escreveram sobre ser mulher, outras, sobre ser feminista. Teve homem falando do próprio machismo, também. E muitas mulheres reclamaram que não querem essa comemoração vazia, não querem receber “parabéns”, reeditando o clássico “enfia esta rosa no cu“.

P.P.S.: Eu já escrevi aqui sobre ser (tornar-se) mulher, e sobre ser feminista. Escrevi também sobre o vagão para mulheres no metrô do Rio de Janeiro, e sobre a chegada de uma mulher à presidência.

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