Mais Veuve Clicquot, por favor

E de repente está todo mundo falando do tal Rei do Camarote, por conta de uma matéria da Veja SP. O sujeito que gasta 50 mil reais numa noite, dá champagne pra todo mundo, dirige uma Ferrari e faz cara de idiota. E, claro, a maior parte dos comentários ridiculariza a situação, o sujeito, a Veja: “hahahahaha, que coisa imbecil”.

Fico pensando duas coisas.

Primeira, por que é que a gente ainda gasta tempo dando ibope pra esse tipo de veículo de mídia. É uma pauta boba de um veículo regional, feita exatamente para criar esse tipo de reação usando um personagem altamente “desgostável”. E entramos na pilha, compartilhamos, comentamos, fazemos o que esperam de nós. Em algum lugar há um editor bem feliz por ter apostado nessa bobagem. Tanta gente acha a Veja um troço abjeto, e mesmo assim compartilha a matéria, só para poder apontar o dedo pra algo que todo mundo concorda que é ridículo. 

Segunda, o quanto é fácil rir de alguém que nos disseram que é ridículo. “Olhem pra esse sujeito gastando dinheiro com champagne pros outros”. Como se ele fosse tão diferente de nós, com as nossas pequenas vaidades. E aí usamos esse cara pra falar de “gente vazia”, e quanta gente eu conheço que torra o salário do mês em bolsa e sapato, gasta grana que não tem pra fazer festas de casamento mirabolantes, tem gente até cogitando comprar o Playstation 4, vejam só. No que isso é tão diferente do sujeito que, tendo grana, escolhe gastar na balada? Se somos todos produtos do consumo, no fim das contas? Se nos deixamos seduzir por esse canto da sereia, só com menos recursos?

Vivemos numa sociedade formatada pelo consumo, e gostamos de acreditar que não somos atingidos por isso. Vemos um sujeito desses, que compra (literalmente) essa ideia sem crítica, e nos sentimos superiores porque somos céticos, críticos, cínicos. Mas estamos ali, comprando ingressos de 400 reais pro Cirque de Soleil, e sofrendo com a culpa quando gastamos 500 reais num jogo de lençóis de algodão egípcio de 800 fios.

“Coitado, é um idiota, todos estão com ele só pelo dinheiro”. E quem de nós não passa por isso? Ou você acha que seus amigos continuariam seus amigos, tudo igual, se você perdesse tudo e fosse morar num conjunto habitacional na Baixada Fluminense? “Ah, é diferente”. É, eu sei. Você prefere Porsches a Ferraris, e acha que Veuve Clicquot é overrated.

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5 comentários sobre “Mais Veuve Clicquot, por favor

  1. Eu assisti ao vídeo um milhão de vezes, e ele continua exercendo um facínio danado em mim. Mas o meu sentimento era mais de angústia do que de escárnio, sabe? Achei o sujeito tão incrivelmente sozinho que me doeu. Lendo o seu post, acho que entendi: é o espelho na minha frente. A nossa diferença pra esse moço é de grau, mas no fundo eu também quero “agregar valor” quando compro roupinha nova ou coloca foto das férias no FB. E entendo que a atração desse vídeo é essa mesma, como nos reality shows em que mostram pessoas em situações extremas pra gente se sentir normal. Como não acumulo coisas a ponto de não conseguir entrar em casa, não tomo 15 litros de coca-cola por semana e nem gasto 50 mil em champagne pros outros beberem, posso colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila com as minhas mesquinharias cotidianas, estou salva.

    • É como a indignação no caso dos Nardoni: a gente tem que demonizar, botar o outro lá longe, se afastar dele completamente, que é pra não se contaminar, pra não deixar ninguém ver o que já está sujo, mesmo, e é feio, e não devia estar aparecendo por baixo da blusa.

      E aí a gente pode respirar aliviado porque comprou uma bolsa de mil reais, mas, né? Pelo menos não estamos gastando 50 mil na balada.

  2. Excelente reflexão, Deborah! Adorei!

    Costumo afirmar que não existe fórmula para a felicidade e que a grande arte é saber viver com o que você tem e reconhecer seus acertos e desacertos na constante busca dos seus sonhos e ideais…enfim, que nossos momentos felizes se repitam várias vezes ao longo da nossa existência!

    A propósito, que possamos não precisar gastar R$ 50 mil em uma noite para nos sentirmos felizes, pois daí precisaremos gastar 60, 70, 80 mil e assim por diante para nos sentirmos em evolução! Rsrs

  3. Dê uma relaxada vai! A graça está na cultura da Internet. Você viu o entreterimento que isso causou? Tumblrs que apareceram, Memes? Sabe por que eu dei atenção pois me fez rir, simples.

    Precisamos tirar esse peso das nossas vidas e parar de achar que tudo hipocrisia e errado.

    Simplemente, relaxe e goze…

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