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Meu ego feio e gordo

(Sim, é mais um post falando de cachorros.)

Trouxe minha Labrador mais velha de BH para o Rio. Phoebe está com 7 anos, obesa, e começando a ter alguns problemas de velhice. Senti que precisava de cuidados mais próximos, e tirei-a da casa com quintal e outra Labrador, Morgana, onde morou a vida toda (com meus ex-ex-sogros – história à parte), para vir morar comigo e com Ricardo num apartamento de dois quartos.

Não foi uma decisão simples, e levei alguns meses amadurecendo isso. Pensando nos gastos, nas dificuldades, nas limitações à minha vida e à do Ricardo. E a saúde dela acabou pesando na balança. Em parte, porque aqui é mais fácil cuidar dela, dar remédio, monitorar o que come. Mas em parte, também, porque, ao pensar que ela não está mais tão longe de morrer, cheguei à conclusão de que queria pelo menos uma chance de morar com ela.

Phoebe foi minha primeira experiência com adestramento. Ela era assim um Marley, louca, agitada, ansiosa, devorando tudo o que encontrava pela frente, arrastando quem tentava passear com ela. Com paciência, conseguimos convencê-la de que obedecer as regras era a forma mais fácil de conseguir o que queria. Ela passou a curtir a brincadeira, e se tornou um cão bastante educado.

Mas continuou ansiosa. Agarrada. Odeia ficar sozinha. Tem tendências obsessivo-compulsivas, lambe as patas até fazer feridas que não cicatrizam. E tudo isso agora está comprimido em 72m², as dificuldades dela me martelando dia e noite – ela acorda de madrugada para lamber as patas, late o tempo todo quando precisa ser deixada só.

Então eu leio esse texto aqui, do Last Psychiatrist (em inglês). E embora o texto fale em garotinhas e “soccer dads”, não consigo deixar de me identificar, especialmente quando ele diz:

“When you are a narcissist, children, even the good ones, are a narcissistic injury.”

(Ou: “Quando você é um narcisista, filhos, até os bons, são uma ferida narcísica”)

A Phoebe é um bom cão. Ela é extremamente dócil, sociável, interessante, divertida. É educada, adora fazer truques, só faz as necessidades no jornal, anda na guia sem puxar. Sai de onde pedimos que saia, espera quando pedimos que espere, deita aos nossos pés enquanto trabalhamos.

Mas ela tem esses problemas, e eles me doem como incompetências minhas. Como incapacidades de educar um cão. Cada vez que ela lambe as patas, cada vez que late no meio da noite, cada vez que vomita pelo stress de estar só (sim, ela fez isso), ela me lembra das minhas próprias faltas. Da minha própria incompletude. A simples existência imperfeita dela é uma ferida no meu ego.

Talvez narcisistas também não devessem ter cães.

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Cabelo branco

Certos eventos só fazem sentido retrospectivamente. Todo mundo tem algum caso pra contar sobre isso, sobre aquela pequena escolha, aquela ínfima coincidência, a chuva que mudou tudo.

Só hoje entendo a importância que teve o meu primeiro cabelo branco.

Foi num dia qualquer, uns 2 anos atrás. Estava no trabalho – no escritório onde fiquei por 5 anos, primeiro como estagiária, depois como advogada meio período. Era um lugar legal, meu chefe era um fofo, mas eu tinha a impressão de estar repetindo o Dia da Marmota a cada nova manhã.

No meio do meu tédio, nessa tarde qualquer, levantei para ir ao banheiro.

O escritório ficava numa região nobre de BH, e a vista da janela do banheiro era o por do sol atrás das montanhas, iluminando tudo de luz laranja. Entrei no banheiro e me olhei no espelho – a luz laranja me caía bem, gostava de me ver nela. Não me acho bonita, e é um prazer encontrar um ângulo, uma luz, um jeito que me façam mudar de ideia por um instante.

Estava perdida na egolatria até que vi algo brilhando no meio do meu cabelo. Num primeiro momento, duvidei – era só uma visão de relance, um reflexo. Mas olhei de novo, e estava lá o brilho fino, comprido, entremeado aos fios de cabelo.

Com receio, o coração ligeiramente acelerado, capturei-o com os dedos e olhei de perto. Parecia um cabelo branco. Um fio loiro, talvez? Uma ilusão de ótica? Olhei de novo, e era isso: branco. Branquinho. Arranquei. Enchi os olhos de água, e joguei no lixo.

Fiquei cabisbaixa. Contei o ocorrido para a secretária do escritório – a única pessoa lá com quem realmente conversava – que disse que cabelo branco “arranca um, nascem três”. Contei pra minha mãe, que me disse que isso era coisa da família do meu pai, porque ela só teve depois dos quarenta.

E eu ali, vinte e quatro anos de idade, e um cabelo branco indiscutível. Num trabalho que não me agradava, com um namorado que não me atendia, sem grana, sem liberdade, sem sonhos. E com um cabelo branco.

Naquele dia entendi que precisava viver logo, porque já estava começando a morrer. E saí da inércia, e rompi com o que me prendia, e voltei pra análise, e mudei pro Rio de Janeiro.

Meu cabelo branco foi o meu Rubicão.

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Psi..o quê? Ou: no divã (que não é o filme)

Como disse antes, voltei para a análise, e talvez seja por isso que ande postando pouco. As ideias estão desorganizadas demais.

Quando comento que frequento o psicanalista, muita gente fica curiosa, quer saber mais, até porque existe um certo misticismo rondando a psicanálise, fomentado por filmes, livros e comentários debochados em geral.

Freud, o próprio

“Algumas vezes um charuto é apenas um charuto”

(Para ver uma boa representação das fantasias que se nutre acerca do psicanalista, vale a pena assistir ao curta feito por Steven Soderbergh no filme Eros. O filme teve uma péssima recepção pela crítica, em grande parte, por não ter atingido suas pretensões, em se tratando de três diretores consagrados, sendo Antonioni considerado um gênio do cinema. Mas é bom, ainda assim.)

Não sou uma especialista em psicanálise, meu estudo sobre o tema se resume a uns dois ou três livros de Freud, mas já tenho um bocado de milhagem de divã. Então, acabo tendo minhas próprias maneiras de explicar o processo aos curiosos.

O famigerado divã, em LondresAlgo que sempre digo a respeito da psicanálise é que começar a frequentar o analista é como começar a arrumar um armário: é preciso desarrumar tudo, para tentar reorganizar depois. A fase inicial da análise é muito difícil, a família e os amigos reclamam, a gente mesma fica se sentindo meio fora de lugar. Mas, aos poucos, como acontece com o armário, as coisas vão se encaixando aqui e ali, e o desespero com a bagunça diminui (embora a bagunça em si possa levar muuuito tempo para melhorar).

Um mito comum que é bom esclarecer: analista não resolve problema. Analista não dá conselho. Não adianta ir até lá achando que vai ser como uma maquininha de refrigerante, em que você insere a moedinha, aperta o botãozinho com a descrição do seu problema, e a latinha com a solução cai pelo buraco.

Deita aqui pra você ver...

Rapadura é doce, mas não é mole, não!

Análise dá trabalho para o analisando. O analista vai conduzindo, provocando, sugerindo, mas ele não chega às conclusões por ninguém. Cada um precisa elaborar suas próprias questões, trazer à tona os conflitos que estão ocultos, e mastigá-los bem. Ruminá-los na busca do tão procurado insight, o orgasmo da análise, o momento em que, usando a metáfora do armário, uma caixa acha seu lugarzinho na prateleira adequada – e que nem sempre é aquela onde se queria inicialmente colocá-la.

Lacan, que complicou tudoNo meu caso específico, meu analista é lacaniano, e usa a técnica do tempo lógico: a sessão não tem duração fixa, e termina no momento… lógico – ou seja, no momento em que o analista percebe que algo importante foi dito, que alguma conclusão importante foi atingida. Isso significa que já tive sessão de 15 minutos, de meia hora, de 45 minutos, e devem continuar variando. Analistas freudianos, por outro lado, têm sessões com duração fixa, o que algumas vezes implica silêncios intermináveis e constrangedores – o que também tem seu lado interessante.

O objetivo disso tudo? Tentar diminuir a angústia, encontrar o próprio desejo, dar voz a ele, e enxergar os problemas apenas do tamanho que eles realmente sejam, ou o mais próximo possível. E ainda parece pouco. Não é à toa que dizem que só maluco faz análise.

A complicação em si

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Gerundismo

Ando vivendo, mais que nunca, um dia de cada vez. Sorvendo devagar o mel de cada hora, e deixando-me levar pelo inesperado.

Ando cedendo aos meus impulsos de prazer, permitindo-me gozar da vida, parar por um momento e relaxar sentindo a brisa do fim da tarde, nesse tempo quente e seco que me irrita.

Ando escrevendo pouco, lendo pouco, pensando pouco, deixo que o corpo me conduza, e espero que a serenidade se instale – aos poucos.

Ainda em aporia, mas permitindo que o tempo traga as respostas.

Aumentando o som, para poder ouvir o coração.

Amando muito e sempre, e cuidando para que as borboletas amarelas não me escapem pela janela.

Ando apenas sendo, e aprendendo que é tão difícil ser. Eu, sendo, é.*

*Parafraseando Clarice em “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres“.

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Aporia

No E-Dicionário de Termos Literários, Carlos Ceia assim define a aporia:

[Do gr. aporia, “caminho inexpugnável, sem saída”, “dificuldade”.] 1. Dificuldade, impasse, paradoxo, momento de auto-contradição ou blindspot que impede que o sentido de um texto ou de uma proposição seja determinado.(…)
2. Como figura de retórica, a aporia diz respeito àqueles momentos em que uma personagem dá sinais de indecisão ou dúvida sobre a forma de se expressar ou de agir. O melhor exemplo é o célebre solilóquio de Hamlet, de William Shakespeare, consagrado na expressão “to be or not to be” (Acto III, 1).(…)”

O dicionário Caldas Aulete prevê três significados para a palavra “áporo”:

1. problema insolúvel; situação sem saída;
2. uma espécie de inseto que cava a terra;
3. uma orquídea verde.

Fui atrás desses significados porque hoje me lembrei de um dos mais enigmáticos poemas de Drummond, “Áporo” – e agora vejo como ele facilmente se relaciona ao meu momento atual:

Áporo

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.

“Áporo”, sem poro, sem saída, cavando um buraco onde se esconder, por onde tentar fugir. Brotando em orquídea verde – que é flor e folha, indecisa sobre o que pretende ser.

Ando tendo sonhos persecutórios recorrentes. Mudam os personagens, mudam os lugares, mas se mantém a sensação de estar encurralada, cercada de perseguidores desconhecidos, poderosos e onipresentes. Permanece também a angústia de não ter para onde correr, não enxergar saída, e nem saber ao certo a razão da perseguição.

Como a orquídea verde, indecisa, em aporia. Como o inseto áporo, cavo um buraco cada vez mais fundo, a pretexto de procurar uma saída. Como num labirinto, perdida.

Como Hamlet:

“To be, or not to be, that is the Question:
Whether ‘tis Nobler in the mind to suffer
The Slings and Arrows of outrageous Fortune,
Or to take Arms against a Sea of troubles,
And by opposing end them

É mais nobre padecer ou se rebelar? Mais nobre aceitar o destino, ou se insurgir contra o que ele reserva? Ser, ou não ser?

Aporamente me pergunto o que fazer.

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24

Quando eu tinha uns 7 anos de idade, eu e minhas amiguinhas do prédio da minha avó tínhamos uma brincadeira de “futurologia”. Num papel, desenhávamos um quadrado, e dentro dele escrevíamos a idade com que queríamos nos casar. Então, ao redor do quadrado, em cada um dos lados, escrevíamos, respectivamente, 3 nomes de meninos que conhecíamos, 3 modelos de carro, 3 lugares no mundo, e 3 situações de vida (que normalmente eram classe média, rica e milionária, já que ninguém queria descer de onde já estava, e eu freqüentei colégio e vizinhança de classe média-alta desde sempre).

A brincadeira consistia em, começando do primeiro nome de menino, ir pulando por cada uma das opções, contando em voz alta até alcançar o número dentro do quadrado. Então, a opção em que parávamos era riscada, e começávamos da seguinte, contando de novo, até só sobrar uma opção de cada tipo (um menino, um carro, um lugar, uma situação), que era caprichosamente circulada com caneta colorida. No final, ali estava a nossa vida futura: a idade com que iríamos nos casar, o noivo, o lugar da lua-de-mel, a situação de vida, e até mesmo o carro que teríamos.

A idade que eu costumava escrever dentro do quadrado, e disso eu me lembrei esses dias, era exatamente a que tenho hoje: 24.

Isso era mais que o triplo da idade que eu então tinha. Eu esperava, aos 24 anos, já ter tudo o que pensava ser importante nessa vida, já estar encaminhada, emparelhada, e rumo a uma felicidade sem fim. Considerava que, aos 24 anos, minha vida já seria plena de certezas, e de escolhas bem-feitas. Parecia um futuro tão remoto, que eu pensava que qualquer coisa poderia acontecer no meio tempo, mas com certeza, aos 24, já estaria tudo resolvido.

Hoje, tenho tudo, menos certezas. Tudo, menos escolhas bem-feitas. Cheguei a pensar em casamento, mas felizmente, desisti (ou a vida desistiu por mim, o que de qualquer forma foi a melhor opção possível), e por enquanto, ainda é tudo novo demais. Não tenho dinheiro para comprar meu próprio carro, e o carro que meu pai me deu não é o que eu teria escolhido. Ainda moro na casa da minha mãe, e não tenho perspectivas de sair de lá tão cedo. E definitivamente não tenho condições de viajar para Bali.

Fico sentindo que decepcionei aquela menina cheia de sonhos, porque cheguei aos 24 anos muito distante do que ela achava tão fácil conquistar. O mundo era dela, porque ela podia sonhá-lo, e fui eu quem despertou do sonho com um gosto amargo na boca, uma ressaca inesperada pelo que não bebi.

Quando estive nos EUA com meu pai, em 2005, ele me deu de presente uma escultura de leão em resina. Disse que era para enfeitar meu futuro escritório. O leão continua guardado dentro da caixa, porque não há escritório nenhum, não há sala nenhuma, tenho apenas uma bancada pequena numa sala compartilhada em escritório alheio, trabalhando todo dia porque não consigo sair do lugar, fingindo que estudo, fingindo que escolho, fingindo que a vida segue – mas ela está parada.

No fundo de mim, aquela menininha de 8 anos continua sonhando, mas ela não sabe que a realidade é louca, que a vida assusta, e que aos 24 anos há incertezas demais.