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Uma despedida.

Eu tive o melhor avô do mundo. O mais amoroso, o mais paciente, o mais leal, o mais divertido. O avô que todo mundo queria adotar, que os amigos adoravam, que encantava até meus namorados. O avô que contava piadas idiotas. Que dizia coisas inconvenientes. Que compunha samba-enredo  pro bloco de Carnaval do condomínio onde morava. Que cultivava orquídeas com o maior capricho. Que nunca conseguiu parar de fumar.

Ele não era um santo, não era um sábio. Tinha um gosto pela polêmica. Um humor instável. Às vezes dava raiva dele, como quando me forçou a dançar na frente de todo mundo no churrasco de formatura (sabendo que eu odeio dançar, mais ainda com plateia). Ou quando cismava que alguma coisa tinha que ser de algum jeito estapafúrdio.

Mas há que se dizer do meu avô que ele viveu e amou intensamente. Ele me amou com tudo o que tinha, com desprendimento, com doçura. Foi meu comparsa, meu amigo, meu professor. Ganhou o apelidou de meu advogado de defesa, porque ai de quem viesse reclamar ou me dar bronca. Vovô se deu para mim, e me ensinou com isso um amor possível, cuidadoso, cheio de delicadeza.

No enterro dele, desde cedinho, havia um sabiá rodeando o velório. Eu amei aquele sabiá tanto. Ele ficou por ali, acompanhando, e quando foram fechar a cova, quando finalmente estava tudo acabado, ele voou para uma árvore e começou a cantar sua despedida. Então alguém me perguntou como eu sabia distinguir um sabiá de todos os outros pássaros, dos bem-te-vis e dos joões-de-barro, e eu pude responder: “vovô me ensinou”.

Tchau, vô. A vida não vai ser a mesma sem você. Mas a gente vai ficar bem.

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Nostalgia de Natal

Natal é o tempo da nostalgia por excelência. O reino do passado.

Natal de adulto é sinônimo de excessos: nos gastos, no consumo de calorias e bebidas alcoolicas, no calor das discussões familiares. É antecedido por uma semana de stress e trânsito ruim, e seguido pela ressaca e pelo vazio. Mas não há grande prazer nessa orgia, e nem mesmo nos presentes – muitas vezes dados por obrigação e recebidos com desdém, despidos de sua função precípua de encantar e fortalecer laços.

Submetemo-nos, porém, às tradições, vagando por elas como zumbis, porque temos sempre a esperança de resgatar o Natal que já tivemos, que é o lugar da infância. Pertence à infância o prazer com a árvore enfeitada, com a guirlanda pendurada na porta. A antecipação, a ansiedade sem obrigações a cumprir. A noite mágica de guloseimas inéditas, os presentes longamente desejados, a fantasia do Papai Noel.

Anos se passam sem que consigamos reaver essa sensação, e ainda assim, persistimos. A eterna busca dos prazeres da infância, simbolizada num peru assado, e num velhinho suando sob uma roupa vermelha nas luzes incômodas do shopping center.

Talvez fosse muito mais simples reencontrar esses prazeres se, ao invés de repetir o ritual, seguindo os passos da infância, buscássemos aquilo que efetivamente nos alegrava: o encantamento. O momento de estar em família, de receber afeto, de nos sentir queridos, de sentir que o mundo era um lugar especial.

Vamos crescendo, e nos desencantamos, e em vão pensamos que repetindo a infância, nos resgataremos. Mas o que resgata de verdade é buscar outras formas de se encantar, é encontrar nas pessoas que amamos, nas experiências que vivemos, motivos para acreditar que a vida é, sim, especial – louca, cheia de boas surpresas, difícil, imprevisível, surpreeendente.

Que as tradições possam deixar de ser reencenações vazias, para se tornarem um bom pretexto para buscarmos o que nos encanta, e para que nos deixemos encantar novamente, a cada instante. Essa é a magia do Natal.

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Declaração de amor

Existem afetos que interferem profundamente naquilo que somos. Meu avô é um, para mim.

Vovô é quase um menino na sua forma de amar. Ele ama perdidamente, e se doa por inteiro. Gosta de brincar, tem uma gargalhada gostosa, e uma paciência imensa para ensinar a uma menina de cinco anos a diferença entre um bem-te-vi e um sabiá.

Ele não é fácil: é impulsivo, explode violentamente de vez em quando (já me deu um beliscão que ficou roxo, quando eu tinha uns 12 anos), é ansioso e inconveniente. E, com tudo isso, é um homem formidável.

Não que isso seja corujice, ou melhor, é claro que é. É meu vô, e sou perdidamente apaixonada por ele. Mas não é só isso. Ele cativa a todos, vizinhos, porteiros, faxineiros, todas as pessoas que o rodeiam acabam sendo tocadas por essa onda de afeto e efusividade que emana dele.

E ainda que ele seja chato, é impossível sentir raiva de verdade de alguém que é tão intenso em tudo que faz. Depois de 48 anos de casado, ele ainda sente ciúmes da minha avó, e compra flores para ela. Aos 74 anos de idade, decidiu aprender a tocar teclado – e, embora não seja um talento, conseguiu. Aos 75, decidiu que ia comprar um computador, e aprender a mexer, e já está até se entendendo com o Google.

Essa capacidade de continuar vivendo, continuar encontrando motivos para querer viver, continuar achando que vale a pena aprender e se aperfeiçoar, é o meu avô, e é o que me faz admirá-lo tanto.

Tudo só pra dizer que ele ainda está internado, depois de uma trombose arterial na perna esquerda (mas já está bem melhor, deve ter alta na segunda), e que toda vez que ele nos dá esses sustos, eu começo a pensar em como vou sentir falta quando ele se for.