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Sobre anencefalia

Minha mãe é médica pediatra e geneticista. Nas estantes da minha casa sempre houve livros  sobre distúrbios e doenças genéticas, imensos e cheios de fotos, que eu folheava, pedindo explicações a ela.

O mundo das malformações (sim, gente, malformação é o termo técnico consagrado, e embora “má-formação” também possa ser usado, dificilmente se vê em textos médicos) e doenças genéticas é pouco conhecido de quem nunca viveu pessoalmente esse tipo de problema. Mesmo as doenças mais prevalentes, como a Síndrome de Down, aparecem em média 1 vez a cada 1000 nascimentos, dependendo da idade da mãe, e há outras que têm, literalmente, 1 caso em 1 milhão. A chance de que um casal saudável, em idade fértil, sem consanguinidade, tenha um filho com algum problema genético é pequena. E por isso acaba sendo fácil ignorar essa realidade que passa ao largo da vida de quase todos nós.

De todas as fotos que vi nos livros da minha mãe, a que mais me assustou, desde a primeira vez , foi a de um bebê anencéfalo (Junto com uma outra, de um feto arlequim, mas isso não vem ao caso. Se a curiosidade for muita e a repulsa, pouca, procurem no Google.). Eu devia ter uns 12, 13 anos, e pensei que aquela foto parecia um sapo. Perguntei a ela do que se tratava, e ela me explicou que era um bebê cujo cérebro – ou, mais precisamente, descobri depois, encéfalo, porque a malformação inclui também ausência de cerebelo – simplesmente não se desenvolvia.

Fiquei imaginando o que isso significava. Perguntei a ela se o bebê sobrevivia, e ela foi categórica: não. Pode durar um pouco mais ou um pouco menos de tempo, pode nascer morto, mas a condição é incompatível com a vida. (E, mesmo assim, apenas no limite em que atividade cardiorrespiratória, por si só, é vida, também entendi depois.) Perguntei se era possível saber com segurança durante a gestação, e ela disse que sim. Mas que, mesmo assim, a mãe precisava levar a gravidez até o fim, porque não podia antecipar o parto. E que era muito triste para as mães receber esse diagnóstico.

Por muito tempo, não ouvi falar em anencéfalos em nenhum lugar fora da minha casa. Mas um dia eles começaram a aparecer nas notícias, em discussões sobre o direito das mulheres de interromper uma gravidez fadada ao insucesso, expondo-se a riscos. Até porque  há que se lembrar que toda gravidez é um risco para a grávida. E não fazia sentido para mim obrigar uma mulher a isso.

Passou mais tempo, entrei para a faculdade de Direito, e as coisas ficaram cada vez mais confusas. Como é que se autorizava retirar o coração de uma pessoa com morte cerebral, para transplante, mas não se reconhecia que um feto sem encéfalo poderia ser retirado do útero? Que conceito torto de vida é esse? Por que é que se confia tanto nos médicos para permitir, como num projeto de lei em tramitação, que avaliem se uma mulher tem condições psicológicas para prosseguir com a gravidez, mas não se confia neles para dizer se um feto de 16 semanas não tem cérebro? E, mais ainda, por que é que os direitos desse feto sem cérebro – e, portanto, sem atividade cerebral, o que nos autoriza a questionar sua própria existência como ser humano vivente – se sobrepõem aos direitos da mulher que o carrega?

E aí vêm as razões da desconfiança. “Ah, os erros médicos”. Não devemos mais nos submeter a cirurgias? Autorizar a expedição de certidões de óbito? Afinal, o médico pode estar errado, o sujeito pode não estar morto. “Ah, e os milagres?” Olha, levados em consideração os milagres, nem os mortos poderiam mais ser enterrados, porque Lázaro, etc e tal. Não dá pra usar milagre para justificar proibições que causam sofrimento a tanta gente.

Ou melhor, a tantas mulheres. Porque a questão de fundo é essa – a restrição à autonomia das mulheres sobre o próprio corpo. Não há homens carregando nas entranhas fetos sem encéfalo. Não há discussão sobre a prevalência do “direito à vida” (discutível, como já disse) desses fetos sobre a autonomia dos homens. O corpo grávido é feminino.

Hoje o Supremo Tribunal Federal está finalmente examinando a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 54, ajuizada em 2004 pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Saúde, alegando, acertadamente, que é uma violação à dignidade das mulheres ser obrigadas a manter o feto após o diagnóstico. Obviamente, quem assim desejar, levará sem questionamentos a gravidez a termo, e poderá considerar que seu dever foi cumprido, seu carma foi evitado, foi feita a vontade de Deus. Mas às demais, será reconhecido o direito de evitar o sofrimento.

Vivemos num estado laico, que reconhece as liberdades individuais. O que espero do STF, hoje, é que permita a todas escolher, e não ser obrigadas pelo Estado a viver, inexoravelmente, um luto de 9 meses.

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Feminismo e privilégio

Ontem foi Dia Internacional da Mulher, e não tive vontade de mandar ninguém enfiar rosa em lugar nenhum – aliás, consegui fugir de todas as rosas que ameaçaram cruzar o meu caminho. Mas não sei se as pessoas perceberam meu sorriso amarelo quando agradeci pelos parabéns, até porque, aparentemente, não tenho do que reclamar.

Trabalho numa empresa que assumiu um compromisso com o empoderamento das mulheres, e vejo isso na prática: onde trabalho, há mais gerentes mulheres do que homens. Todos nós que não temos cargos de confiança ganhamos a mesma coisa, e não percebo discriminação nenhuma com relação à distribuição do trabalho entre homens e mulheres, ou o reconhecimento dos méritos.

Na minha vida acadêmica e profissional, ser mulher nunca foi menos-valia. Na minha turma de faculdade, metade composta por homens e metade, por mulheres, o prêmio de destaque acadêmico foi para uma mulher, minha amiga, e a oradora da turma fui eu.

Consegui o que queria, cheguei onde desejava. Casei quando quis, com quem quis, e só vou ter filhos quando quiser.

Tudo isso é indício de que o movimento feminista foi bem-sucedido. Eu usufruo da luta e do trabalho de quem veio antes. Olhando de fora, daria até para dizer que as conquistas acabaram, que não há mais sentido, que a igualdade é uma realidade. Mas: 1) eu vivo num ambiente protegido, sou branca, participo de um estrato sócio-econômico altamente privilegiado; e 2) nem esse lugar privilegiado me protege completamente.

É claro que é tudo muito mais sutil. Como o racismo, o machismo também aprendeu a ser insidioso. É feio dizer que mulheres são inferiores. Mas as estruturas de poder estão aí, se renovando para não perder o lugar.

Faz parte da manutenção disso convencer as mulheres de que precisam de milhões de tratamentos de beleza para expiarem a culpa pelo envelhecimento. Impor juízos de valor sobre aquelas que praticam a liberdade sexual nos mesmos termos que os homens sempre praticaram. Bloquear a discussão sobre o aborto, mantendo a criminalização e gritando “assassinato!” a cada vez que se pretende voltar o foco para a autonomia das mulheres sobre o próprio corpo.

O machismo se revela no cotidiano. Na divisão estereotipada dos papéis de gênero. Na atribuição de características “intrínsecas” a homens e mulheres, como se essas categorias fossem muito naturais. Na condescendência e no paternalismo. Na hipersexualização do corpo feminino, que tem que andar coberto, porque “desperta desejos inconfessáveis”. Na tentativa de chamar de meritocracia a “coincidência” de que a maior parte das posições de poder é ocupada por homens.

Mulheres continuam morrendo no parto, sofrendo violência doméstica e ganhando substancialmente menos que os homens, em média. É por isso que não, não é suficiente dar a uma mulher uma rosa e os parabéns – pelo quê, mesmo? – e reforçar meia dúzia de estereótipos sobre “feminilidade”, “fragilidade” e “sensibilidade”. O que nós queremos é igualdade.

P.S.: Ontem foram publicados vários bons textos lembrando a origem da data, as tantas lutas feministas que culminaram no reconhecimento de uma série de direitos. Algumas escreveram sobre ser mulher, outras, sobre ser feminista. Teve homem falando do próprio machismo, também. E muitas mulheres reclamaram que não querem essa comemoração vazia, não querem receber “parabéns”, reeditando o clássico “enfia esta rosa no cu“.

P.P.S.: Eu já escrevi aqui sobre ser (tornar-se) mulher, e sobre ser feminista. Escrevi também sobre o vagão para mulheres no metrô do Rio de Janeiro, e sobre a chegada de uma mulher à presidência.

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Vagão para mulheres e transgressão

Foto: Patricia Villalba - Estadão

Vigora no Estado do Rio de Janeiro a Lei nº 4733/2006, que determina a existência de vagões de metrô exclusivos para mulheres, nos horários de pico. Não vou entrar no mérito da discussão sobre a validade das ações afirmativas para a solução das desigualdades que elas buscam amenizar. Minha questão aqui é outra.

A lei foi publicada em 23 de março 2006, e deu às empresas 30 dias para se adaptarem à determinação. Desde o primeiro dia, porém, ficou claro que o cumprimento da legislação pelos usuários não seria tão simples. Mais de 4 anos depois, o problema continua o mesmo.

Num primeiro momento, a explicação mais simples com certeza era o desconhecimento, e mesmo hoje, com certeza um dos motivos de boa parte do desrespeito à exclusividade feminina nos carros é a distração, combinada com a pressa.

Mas só a distração não explica a dimensão do descumprimento da lei.

Boa parte dos homens considera um absurdo existirem vagões exclusivos para mulheres. Esse, em geral, é o mesmo cara que acha absurdo haver assentos e filas reservados para idosos, deficientes e gestantes,  que considera que não há racismo no Brasil, e que faz piadinha dizendo que daqui a pouco a homossexualidade vai ser obrigatória. Provavelmente também acha que o homem branco heterossexual de classe média está em séria desvantagem no mundo, hoje.

O diagnóstico desse rapaz é umbiguismo e incapacidade de sentir empatia. É um mal relativamente comum,  e muitas vezes inócuo, caso tenham sido impostos os limites adequados pelos pais, pelos professores, pelas autoridades responsáveis por educar.

Esses que receberam limites podem até resmungar, mas quando instados a sair do carro, acabam fazendo, por medo de sofrer a sanção, e por respeito à lei – o que, convenhamos, é o suficiente para uma boa convivência na sociedade civilizada.

Mas há o outro tipo: são os que, além de não conseguirem se colocar no lugar do mais fraco, não aprenderam a respeitar as regras da boa convivência. Nem a lei os amedronta. Ou, ainda, amedronta, mas sua forma de reagir é transgredindo. Afrontam para se afirmarem, afrontam para receberem atenção, afrontam para desafiar a lei a chegar até eles. Afrontam porque não enxergam mulheres como iguais – são outros, inferiores, como negros, índios, gays. Ameaças em sua alteridade.

Esse é um macho acuado. Na sua ânsia de transgressão, invade o vagão das mulheres, senta nos lugares preferenciais e liga o rádio no volume máximo. Mantém as pernas abertas, e encara ostensivamente qualquer uma que ouse lhe dirigir o olhar. Ameaça quem o ameaça. Não vai bater em alguém do seu tamanho, vai bater naquelas que o lembram da sua própria falta, da sua pequenez, da sua incompletude.

Sua atitude funciona. Todas observam, remoem o ódio, a humilhação, a indignação, mas ninguém se move. A lei não está do nosso lado. Não há guardas no vagão, não há a quem se recorrer para impor ao troglodita a civilização. A cena se repete em diferentes vagões, em diferentes dias e horários: o macho afrontador, a mulher calada, o desrespeito.

As tentativas de reduzir a desigualdade ameaçam os tradicionais detentores do poder, e eles tentam reavê-lo no grito. Nosso silêncio indica que, infelizmente, ainda não conseguimos gritar de volta. É preciso que nos apropriemos do vagão de mulheres, do espaço público, das ruas, do mundo, é preciso que cheguemos à presidência de países e empresas, é preciso que adotemos nosso lugar de sujeitos desejantes, que têm voz, que podem.

Depois do meu post otimista, é preciso encarar que ainda há muito chão antes de podermos realmente poder. O vagão do metrô é só o começo.

 

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Feminina

– Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
– Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
– Então me ilumina, me diz como é que termina?
– Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.

Assim começa a música “Feminina”, composta e cantada por Joyce, no disco de mesmo nome (que também contem “Clareana”, outra deliciosa pérola da MPB).

“Ô mãe, me explica, me ensina me diz o que é feminina?” é uma pergunta que, de alguma forma, toda menina faz à mãe, não uma, mas várias vezes. Ela quer uma identidade. Já sabe que existem diferenças anatômicas entre si e os meninos, mas e aí? O que fazer disso? Não, não há resposta simples.

Os gregos culparam Pandora pela libertação de todos os males do mundo. A Bíblia colocou sobre Eva a responsabilidade pelo pecado original. Mulheres foram perseguidas na Idade Média, acusadas de serem bruxas, usadas para expiar o medo e a culpa de todos os demais. Quando o movimento feminista surgiu, na década de 60, logo surgiram também as reações iradas contra aquelas mulheres que desafiavam a ordem instituída. A ameaça é associada ao feminino: a bruxaria, a dissimulação, a noite, a mentira, aquilo que não tem uma forma clara. A mulher é desconhecida, e, por isso, apavora.

Maria Rita Kehl menciona, em um texto chamado “O que pode uma mulher?“, uma interpretação da frase de Lacan de que “não existe A mulher”. A mulher não teria significante por não ter sido a ela permitido se inscrever no campo da cultura. A cultura ocidental é masculina, e só recentemente as mulheres vêm reivindicando seu papel de sujeitos em igualdade de condições – mesmo assim, a passos lentos, e ainda há quem considere que elas estão fora do seu “ambiente natural”.

Aliás, é de se dizer que existe muito pouco de “natural” na definição da identidade de gênero. Masculino e feminino são construções. Ademais das diferenças fisiológicas – que não são tantas assim, embora determinadas correntes de psicologia evolutiva de botequim muito insistam na sua existência – todo o restante é culturalmente determinado. Papéis sociais,  formas de relacionamento, modelo de família.

Uma das queixas que existe em relação às feministas é a de que elas subverteram o modelo tradicional de família. Algumas mulheres ainda se lamentam, porque prefeririam levar uma vida de dona de casa dos anos 50, a precisar trabalhar na rua. E a verdade é que, embora as pessoas digam que querem ser livres, a liberdade e a emancipação são, sim, muito difíceis, porque nos colocam diante do grande desafio das escolhas. A dona de casa dos anos 50 não tinha escolha, e não falta quem considere isso um alívio.

Voltando, porém, à vaca fria (“cold bitch” seria a versão em inglês, e é um belo xingamento para se dirigir a uma mulher), o enigma do feminino está exatamente naquilo em que desafia as amarras. Adélia Prado, em “Com licença poética”, avisa, depois de dizer que carregar bandeira é cargo pesado para a mulher, espécie ainda envergonhada: “Mulher é desdobrável. Eu sou.” O grande segredo do feminino, e uma das razões para a afirmação de Lacan, é ser reinventável.

Desdobráveis, somos. Não sei dançar, sou muito pouco delicada, conto piadas cabeludas, detesto comprar roupa, não acompanho novela, carrego coisas pesadas, gostava de jogar futebol (e sei a regra do impedimento!), pratico arte marcial, falo palavrão. Ainda assim, sou mulher. Por quê? Porque o “ser mulher” não é nenhuma dessas coisas. Nenhuma das características tradicionalmente associadas ao feminino é suficiente para traduzi-lo. Como o masculino, inclusive, mas uma coisa de cada vez.

O que quero dizer é: toda vez que vejo um ressurgimento dos estereótipos, uma exacerbação das diferenças de gêneros, uma afirmação da “macheza” ou da “feminilidade”, tenho calafrios. Como as batatas ruffles “pra menino” e “pra menina”. Ou um texto que diga que o papel de conhecedor de vinhos cabe ao homem, devendo a mulher ficar caladinha, mesmo que saiba mais. Ou um desembargador afirmando que só pode ser mentira uma candidata a juíza afirmar que o marido médico vai largar o consultório para acompanhá-la. Aquilo que nos permite sermos livres e agirmos conforme o nosso desejo é exatamente a liberdade de ser. Doença é absolutizar o relativo, e não aceitar que os papéis de gênero são mutáveis, e que a beleza dos relacionamentos humanos está exatamente na possibilidade de negociá-los.

Feminino não tem solução universal. Como conclui Joyce:

“E esse mistério estará sempre lá
Feminina menina no mesmo lugar”