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Das coisas pequenas e das coisas grandes

A vida é cheia de coisas pequenas. Pequenas alegrias, pequenas decisões, pequenas vitórias, pequenos desafios. Eu me considero uma pessoa de pequenas coisas. Meu olhar está sempre ali, no detalhe, nas ternuras escondidas, no acumulado dessas coisinhas que tornam o cotidiano menos massacrante.

Mas há também as coisas grandes. As que mudam tudo. As boas e as ruins, aquelas que de repente fazem abrir um buraco no chão, ou iluminam a vida de uma vez.

E às vezes coisinhas bem pequenas podem ser, na verdade, coisas grandes. Como essa coisinha de 5 centímetros que agora anda comigo por toda parte. Que tem um coraçãozinho que bate. Que, com 12 semanas, já tem bracinhos, perninhas, dedinhos. E que desde que descobrimos que existe, jogou luz em tudo nas nossas vidas.

Lá pra setembro a vida vai virar de cabeça pra baixo. Já está virando. Acho que já virou.

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Mais Veuve Clicquot, por favor

E de repente está todo mundo falando do tal Rei do Camarote, por conta de uma matéria da Veja SP. O sujeito que gasta 50 mil reais numa noite, dá champagne pra todo mundo, dirige uma Ferrari e faz cara de idiota. E, claro, a maior parte dos comentários ridiculariza a situação, o sujeito, a Veja: “hahahahaha, que coisa imbecil”.

Fico pensando duas coisas.

Primeira, por que é que a gente ainda gasta tempo dando ibope pra esse tipo de veículo de mídia. É uma pauta boba de um veículo regional, feita exatamente para criar esse tipo de reação usando um personagem altamente “desgostável”. E entramos na pilha, compartilhamos, comentamos, fazemos o que esperam de nós. Em algum lugar há um editor bem feliz por ter apostado nessa bobagem. Tanta gente acha a Veja um troço abjeto, e mesmo assim compartilha a matéria, só para poder apontar o dedo pra algo que todo mundo concorda que é ridículo. 

Segunda, o quanto é fácil rir de alguém que nos disseram que é ridículo. “Olhem pra esse sujeito gastando dinheiro com champagne pros outros”. Como se ele fosse tão diferente de nós, com as nossas pequenas vaidades. E aí usamos esse cara pra falar de “gente vazia”, e quanta gente eu conheço que torra o salário do mês em bolsa e sapato, gasta grana que não tem pra fazer festas de casamento mirabolantes, tem gente até cogitando comprar o Playstation 4, vejam só. No que isso é tão diferente do sujeito que, tendo grana, escolhe gastar na balada? Se somos todos produtos do consumo, no fim das contas? Se nos deixamos seduzir por esse canto da sereia, só com menos recursos?

Vivemos numa sociedade formatada pelo consumo, e gostamos de acreditar que não somos atingidos por isso. Vemos um sujeito desses, que compra (literalmente) essa ideia sem crítica, e nos sentimos superiores porque somos céticos, críticos, cínicos. Mas estamos ali, comprando ingressos de 400 reais pro Cirque de Soleil, e sofrendo com a culpa quando gastamos 500 reais num jogo de lençóis de algodão egípcio de 800 fios.

“Coitado, é um idiota, todos estão com ele só pelo dinheiro”. E quem de nós não passa por isso? Ou você acha que seus amigos continuariam seus amigos, tudo igual, se você perdesse tudo e fosse morar num conjunto habitacional na Baixada Fluminense? “Ah, é diferente”. É, eu sei. Você prefere Porsches a Ferraris, e acha que Veuve Clicquot é overrated.

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Post de fim de ano ainda/já.

Comecei a escrever esse post em dezembro de 2012. Não dei conta de terminar.

“Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos, era a idade da sabedoria, era a idade da insensatez, era a época da crença, era a época da incredulidade, era a estação da luz, era a estação das trevas, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero, tinha-se tudo e nada se tinha, seguíamos todos diretamente para o Céu, seguíamos todos diretamente pelo outro caminho…”

– Charles Dickens, “Um Conto de Duas Cidades”

Não escrevi quase nada, esse ano [2012, mas vale pra 2013 também], mas não queria pular o post de olhar pra trás. Esse é um ano em que é fundamental olhar para trás, para tentar fazer algum sentido. Eu perdi uma das pessoas mais queridas da minha vida, esse ano. E pessoas queridas ao meu redor perderam pessoas queridas, também, e todos nos olhamos com um pouco de compreensão. E trabalhei feito um burro de carga, mas também recebi reconhecimento pelo meu trabalho. E viajei uma das viagens mais lindas da vida, e conheci gente sensacional, e experimentei, explorei, testei. Inventei.

Finge que o meio é o fim do ano. Agora chegou agosto, e a dor vai doer toda de novo. 2013 podia não repetir 2012, que começou lindo e terminou limbo. O melhor dos tempos, o pior dos tempos.

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Planejamento

A classe média estabelecida (favor não confundir com a emergente, que as pessoas ficam ofendidas) não compra mais armários. Desses, que muita gente chama de guarda-roupas, ou roupeiro. Não importa muito o nome que se dê, o que interessa é o fato: armário está virando coisa de pobre. Ou de classe média emergente.

Então, o esquema agora é “planejar um ambiente” ou fazer “marcenaria planejada”. Nada de móveis prontos, de catálogo, que todo mundo pode ter igual. Pega bem ter os móveis – via de regra, os destinados ao armazenamento de coisas – feitos sob  encomenda, ao gosto do freguês.

A primeira parte engraçada da história: os tais móveis sob encomenda na verdade são módulos pré-fabricados. O que muda é o tamanho, e a disposição interna. Todos são de MDF ou MDP – umas siglas estranhas que significam, respectivamente, “medium density fiberboard” e “medium density particleboard“. O nome lembra algo semelhante a compensado, e não tem vendedor que me convença de que não há aí um parentesco.

Começa então a ladainha. Das corrediças telescópicas. E do acabamento em metal. E as dobradiças, os puxadores, as maravilhas da tecnologia, tudo isso dentro do conforto do lar, por módicos… 6 mil reais. 8 mil reais. 11 mil reais.  Porque é claro que o importante é que tudo seja muito exclusivo. Afinal, é personalizado, não é? Ah, você não quer MDF? Claro que você quer MDF, é ótimo!

E então as pessoas se endividam, compram no Construcard, parcelam no cheque, fazem todos os armários da casa lá com o tal MDP (mas não era MDF, gente?) revestido com aroma artificial de madeira e corrediças estroboscópicas, e ficam orgulhosas e felizes porque os seus armários são iguaizinhos aos das caléga do silviço.

O que é a segunda parte engraçada: móveis sob encomenda não têm nada de exclusivo. São todos iguais. Todos os quartos, salas e cozinhas com armários planejados se parecem muito mais do que as lojas de planejados querem fazer crer. Até porque não há tampouco grande diferença entre uma e outra, e aliás, tudo vem do Sul, parte do preço absurdo é o frete, e ó: 45 dias úteis pra entregar essa belezinha.

Muito agradecida, amigo, vou ali em Madureira comprar meu guarda-roupas prêt-à-porter

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Uma despedida.

Eu tive o melhor avô do mundo. O mais amoroso, o mais paciente, o mais leal, o mais divertido. O avô que todo mundo queria adotar, que os amigos adoravam, que encantava até meus namorados. O avô que contava piadas idiotas. Que dizia coisas inconvenientes. Que compunha samba-enredo  pro bloco de Carnaval do condomínio onde morava. Que cultivava orquídeas com o maior capricho. Que nunca conseguiu parar de fumar.

Ele não era um santo, não era um sábio. Tinha um gosto pela polêmica. Um humor instável. Às vezes dava raiva dele, como quando me forçou a dançar na frente de todo mundo no churrasco de formatura (sabendo que eu odeio dançar, mais ainda com plateia). Ou quando cismava que alguma coisa tinha que ser de algum jeito estapafúrdio.

Mas há que se dizer do meu avô que ele viveu e amou intensamente. Ele me amou com tudo o que tinha, com desprendimento, com doçura. Foi meu comparsa, meu amigo, meu professor. Ganhou o apelidou de meu advogado de defesa, porque ai de quem viesse reclamar ou me dar bronca. Vovô se deu para mim, e me ensinou com isso um amor possível, cuidadoso, cheio de delicadeza.

No enterro dele, desde cedinho, havia um sabiá rodeando o velório. Eu amei aquele sabiá tanto. Ele ficou por ali, acompanhando, e quando foram fechar a cova, quando finalmente estava tudo acabado, ele voou para uma árvore e começou a cantar sua despedida. Então alguém me perguntou como eu sabia distinguir um sabiá de todos os outros pássaros, dos bem-te-vis e dos joões-de-barro, e eu pude responder: “vovô me ensinou”.

Tchau, vô. A vida não vai ser a mesma sem você. Mas a gente vai ficar bem.

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Mais do mesmo

E aí você vive na sociedade da informação. Que se é sociedade da informação, é também, por decorrência, da opinião. E você precisa opinar, porque quem não opina, não é.

E aí a informação vem vindo, como num Dance Dance Revolution, e você só tem instantes para decidir onde pisar. Você se sente o goleiro antes do pênalti, com medo de pular pro lado errado e acabar se alinhando com o Reinaldo Azevedo, sem querer.

E aí você quer ser livre-pensador – nem contra, nem a favor, muito antes pelo contrário. E você tenta ser original nas suas opiniões, mas acaba caindo nos clichês. E tenta fugir dos clichês, só pra descobrir, freudianamente, que negar o clichê é só mais uma forma de reafirmá-lo. E você não sabe pra onde correr, não é possível que já tenham em tão pouco tempo transformado em clichê tudo o que você queria dizer.

E aí você tenta fugir da polarização. E descobre que não consegue, que no fundo seu raciocínio leva a algum dos polos da discussão. E que, na tentativa de evitá-los,  você perdeu também a chance de liderar qualquer um deles com o texto paradigmático que receberá menções e compartilhamentos até a discussão esfriar.

E aí você se vê repetindo coisas que nem leu. Ecoando o senso comum. Você vê que a sua piada não era nova. Que a sua sacada genial era só um jeito diferente de dizer o que todo mundo já está dizendo, e você não escreve bem o suficiente para abrilhantar a discussão.

E aí você se depara com a inevitável constatação da sua própria mediocridade. Do seu próprio narcisismo. Da sua necessidade de receber reconhecimento. Você se alimenta da notoriedade efêmera, mesmo que não admita. Até aqui, até agora.

Você flerta com a intelectualidade incompreendida, mas no fundo queria mesmo era ser ex-BBB.

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“Piada Inocente”

“Preto só come carne quando morde a língua”.

“Preto só toma laranjada quando tem briga na feira”.

“Preto, quando não caga no começo, caga no final”.

Sim, são piadas racistas. Não, eu não acho a menor graça nelas, e imagino que a maior parte das pessoas que estão lendo esse texto também não ache. Mas há quem ache muita graça, morra de rir, conte pros amigos – há alguma dúvida de que essas pessoas são racistas?

Uma polêmica recente envolve um cara no Twitter que linkou essa imagem (clique para aumentar):

Não vou entrar no mérito de quem é, não vou me referir à discussão que aconteceu, nem vou tentar descobrir quem está certo ou errado. As minhas perguntas são: o que você pensa quando vê essa imagem? Você tem alguma dúvida de que ela é preconceituosa? De que só dá pra achar graça nessa piada se você compartilha desse preconceito?

O Alex Castro tem um texto sobre a graça das piadas que ajuda a entender o que quero dizer: Porque o Humor é Engraçado. No texto há um trecho em inglês, e segue uma tradução livre:

“A teoria que eles apresentam: ‘A risada e a diversão resultam de violações que são simultaneamente percebidas como inócuas’. Isto é, as pessoas percebem uma violação ‘à dignidade pessoal (p.ex., pastelão, deformidades físicas), às normas linguísticas (p. ex., sotaques diferentes, inadequação vocabular), às normas sociais (p. ex., bestialismo, comportamentos desrespeitosos)’ enquanto, ao mesmo tempo, reconhecem que a violação não representa uma ameaça a elas ou a sua visão de mundo”.

Então, voltando à piada do Mastercard: se um cidadão de Andrômeda, planeta onde os seres são assexuados e se reproduzem por brotamento, se deparasse com essa piada, ele acharia graça? Não, porque, para ele, a piada não faz sentido, e não representa nenhum tipo de violação. Ele não conhece os pressupostos.

Por outro lado, por que é que as piadas sobre negros não têm graça para quem não é racista? Porque elas representam uma violação, sim, mas essa violação não é percebida como inócua. Ela é agressiva demais para ter graça numa sociedade em que o preconceito racial é um problema sério, disseminado e criminalizado, e em que as pessoas que se reputam “de bem” não querem ser reconhecidas como racistas.

A piada do Mastercard tem graça para quem acha que ela é inócua. Para quem acredita que dizer que mulheres são interesseiras e materialistas não é um preconceito odioso, e que é só uma pequena violação, inócua, insinuar que elas se aproximam dos homens atraídas exclusivamente por seus cartões de crédito.

Da mesma forma, a piada do Rafinha Bastos de que o homem que estupra mulher feia não merece cadeia, mas sim, um abraço. A afirmação de que um estupro é bom para uma mulher feia, que de outra forma não obteria sexo, é percebida por ele como uma violação apenas inócua.

O meu problema com isso tudo? É que as piadas machistas ainda sejam percebidas como inócuas, num país em que as estatísticas sobre violência contra a mulher são alarmantes, e em que as mulheres ainda ganham substancialmente menos que os homens. Ou que se riam de piadas homofóbicas, mesmo com os casos de agressão contra gays cada vez mais comuns.

Rir de uma piada preconceituosa revela nosso preconceito. É possível alegar ignorância – muitas vezes é difícil perceber o preconceito de um piada, quando não estamos acostumados a prestar atenção. Mas dizer que ela é “inocente” quando esse preconceito é apontado por alguém é só uma forma de fingir que ele não está lá, e, com isso, perpetuá-lo.