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Mais do mesmo

E aí você vive na sociedade da informação. Que se é sociedade da informação, é também, por decorrência, da opinião. E você precisa opinar, porque quem não opina, não é.

E aí a informação vem vindo, como num Dance Dance Revolution, e você só tem instantes para decidir onde pisar. Você se sente o goleiro antes do pênalti, com medo de pular pro lado errado e acabar se alinhando com o Reinaldo Azevedo, sem querer.

E aí você quer ser livre-pensador – nem contra, nem a favor, muito antes pelo contrário. E você tenta ser original nas suas opiniões, mas acaba caindo nos clichês. E tenta fugir dos clichês, só pra descobrir, freudianamente, que negar o clichê é só mais uma forma de reafirmá-lo. E você não sabe pra onde correr, não é possível que já tenham em tão pouco tempo transformado em clichê tudo o que você queria dizer.

E aí você tenta fugir da polarização. E descobre que não consegue, que no fundo seu raciocínio leva a algum dos polos da discussão. E que, na tentativa de evitá-los,  você perdeu também a chance de liderar qualquer um deles com o texto paradigmático que receberá menções e compartilhamentos até a discussão esfriar.

E aí você se vê repetindo coisas que nem leu. Ecoando o senso comum. Você vê que a sua piada não era nova. Que a sua sacada genial era só um jeito diferente de dizer o que todo mundo já está dizendo, e você não escreve bem o suficiente para abrilhantar a discussão.

E aí você se depara com a inevitável constatação da sua própria mediocridade. Do seu próprio narcisismo. Da sua necessidade de receber reconhecimento. Você se alimenta da notoriedade efêmera, mesmo que não admita. Até aqui, até agora.

Você flerta com a intelectualidade incompreendida, mas no fundo queria mesmo era ser ex-BBB.

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Querido ano velho

A estante agora é a daqui de casa.

Droga. Ensaiei tanto post, e agora o ano acabou – fica meio sem sentido começar a discutir os dilemas da dona de casa feminista com todo mundo se estapeando em Copacabana pra ver os fogos e pular sete ondinhas. Então, melhor partir logo para aquele momento já clássico do ano na prateleira, etc. e tal.

Acho que 2011 conseguiu ser o melhor ano de que me lembro até hoje. Melhor que 2001 e 2002, melhor que 2010. Especial, mesmo.

Foi o ano de ser inacreditavelmente feliz. No final de 2010, Ricardo comprou passagem só de vinda para o Rio. Em maio, trouxemos a Phoebe para morar conosco. Em setembro, nos casamos de pastel passado, e finalmente pude conhecer Machu Picchu, na lua de mel. E o trabalho indo bem, e gente nova entrando na vida, e gente de sempre trilhando novos caminhos.

Tantas vezes me peguei, esse ano, sentada no chão, olhando incrédula pra forma quase mágica como a vida se organizou, cheia de uma ternura indescritível por tudo:  casa, marido, cachorro, os sapatos espalhados, a caixa de transporte no meio da sala, a estante enfeitada com aparadores de livro em forma de bicho.

Um dia contei da brincadeiraque fazia quando criança.  E disse que a idade que usava de referência era 24, e que, portanto, eu tinha frustrado meus sonhos infantis. Mas hoje, prefiro acreditar que essa menina que eu fui era capaz de adequar as expectativas. E de entender que cada coisa tem seu tempo, e que três anos podem ser bem pouco tempo.

2011 foi Grande Sertão:Veredas:

“Hoje, sei: medo meditado – foi isto. Medo de errar. Sempre tive. Medo de errar é que é a minha paciência.”

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“Piada Inocente”

“Preto só come carne quando morde a língua”.

“Preto só toma laranjada quando tem briga na feira”.

“Preto, quando não caga no começo, caga no final”.

Sim, são piadas racistas. Não, eu não acho a menor graça nelas, e imagino que a maior parte das pessoas que estão lendo esse texto também não ache. Mas há quem ache muita graça, morra de rir, conte pros amigos – há alguma dúvida de que essas pessoas são racistas?

Uma polêmica recente envolve um cara no Twitter que linkou essa imagem (clique para aumentar):

Não vou entrar no mérito de quem é, não vou me referir à discussão que aconteceu, nem vou tentar descobrir quem está certo ou errado. As minhas perguntas são: o que você pensa quando vê essa imagem? Você tem alguma dúvida de que ela é preconceituosa? De que só dá pra achar graça nessa piada se você compartilha desse preconceito?

O Alex Castro tem um texto sobre a graça das piadas que ajuda a entender o que quero dizer: Porque o Humor é Engraçado. No texto há um trecho em inglês, e segue uma tradução livre:

“A teoria que eles apresentam: ‘A risada e a diversão resultam de violações que são simultaneamente percebidas como inócuas’. Isto é, as pessoas percebem uma violação ‘à dignidade pessoal (p.ex., pastelão, deformidades físicas), às normas linguísticas (p. ex., sotaques diferentes, inadequação vocabular), às normas sociais (p. ex., bestialismo, comportamentos desrespeitosos)’ enquanto, ao mesmo tempo, reconhecem que a violação não representa uma ameaça a elas ou a sua visão de mundo”.

Então, voltando à piada do Mastercard: se um cidadão de Andrômeda, planeta onde os seres são assexuados e se reproduzem por brotamento, se deparasse com essa piada, ele acharia graça? Não, porque, para ele, a piada não faz sentido, e não representa nenhum tipo de violação. Ele não conhece os pressupostos.

Por outro lado, por que é que as piadas sobre negros não têm graça para quem não é racista? Porque elas representam uma violação, sim, mas essa violação não é percebida como inócua. Ela é agressiva demais para ter graça numa sociedade em que o preconceito racial é um problema sério, disseminado e criminalizado, e em que as pessoas que se reputam “de bem” não querem ser reconhecidas como racistas.

A piada do Mastercard tem graça para quem acha que ela é inócua. Para quem acredita que dizer que mulheres são interesseiras e materialistas não é um preconceito odioso, e que é só uma pequena violação, inócua, insinuar que elas se aproximam dos homens atraídas exclusivamente por seus cartões de crédito.

Da mesma forma, a piada do Rafinha Bastos de que o homem que estupra mulher feia não merece cadeia, mas sim, um abraço. A afirmação de que um estupro é bom para uma mulher feia, que de outra forma não obteria sexo, é percebida por ele como uma violação apenas inócua.

O meu problema com isso tudo? É que as piadas machistas ainda sejam percebidas como inócuas, num país em que as estatísticas sobre violência contra a mulher são alarmantes, e em que as mulheres ainda ganham substancialmente menos que os homens. Ou que se riam de piadas homofóbicas, mesmo com os casos de agressão contra gays cada vez mais comuns.

Rir de uma piada preconceituosa revela nosso preconceito. É possível alegar ignorância – muitas vezes é difícil perceber o preconceito de um piada, quando não estamos acostumados a prestar atenção. Mas dizer que ela é “inocente” quando esse preconceito é apontado por alguém é só uma forma de fingir que ele não está lá, e, com isso, perpetuá-lo.

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Meu ego feio e gordo

(Sim, é mais um post falando de cachorros.)

Trouxe minha Labrador mais velha de BH para o Rio. Phoebe está com 7 anos, obesa, e começando a ter alguns problemas de velhice. Senti que precisava de cuidados mais próximos, e tirei-a da casa com quintal e outra Labrador, Morgana, onde morou a vida toda (com meus ex-ex-sogros – história à parte), para vir morar comigo e com Ricardo num apartamento de dois quartos.

Não foi uma decisão simples, e levei alguns meses amadurecendo isso. Pensando nos gastos, nas dificuldades, nas limitações à minha vida e à do Ricardo. E a saúde dela acabou pesando na balança. Em parte, porque aqui é mais fácil cuidar dela, dar remédio, monitorar o que come. Mas em parte, também, porque, ao pensar que ela não está mais tão longe de morrer, cheguei à conclusão de que queria pelo menos uma chance de morar com ela.

Phoebe foi minha primeira experiência com adestramento. Ela era assim um Marley, louca, agitada, ansiosa, devorando tudo o que encontrava pela frente, arrastando quem tentava passear com ela. Com paciência, conseguimos convencê-la de que obedecer as regras era a forma mais fácil de conseguir o que queria. Ela passou a curtir a brincadeira, e se tornou um cão bastante educado.

Mas continuou ansiosa. Agarrada. Odeia ficar sozinha. Tem tendências obsessivo-compulsivas, lambe as patas até fazer feridas que não cicatrizam. E tudo isso agora está comprimido em 72m², as dificuldades dela me martelando dia e noite – ela acorda de madrugada para lamber as patas, late o tempo todo quando precisa ser deixada só.

Então eu leio esse texto aqui, do Last Psychiatrist (em inglês). E embora o texto fale em garotinhas e “soccer dads”, não consigo deixar de me identificar, especialmente quando ele diz:

“When you are a narcissist, children, even the good ones, are a narcissistic injury.”

(Ou: “Quando você é um narcisista, filhos, até os bons, são uma ferida narcísica”)

A Phoebe é um bom cão. Ela é extremamente dócil, sociável, interessante, divertida. É educada, adora fazer truques, só faz as necessidades no jornal, anda na guia sem puxar. Sai de onde pedimos que saia, espera quando pedimos que espere, deita aos nossos pés enquanto trabalhamos.

Mas ela tem esses problemas, e eles me doem como incompetências minhas. Como incapacidades de educar um cão. Cada vez que ela lambe as patas, cada vez que late no meio da noite, cada vez que vomita pelo stress de estar só (sim, ela fez isso), ela me lembra das minhas próprias faltas. Da minha própria incompletude. A simples existência imperfeita dela é uma ferida no meu ego.

Talvez narcisistas também não devessem ter cães.

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O que aprendi com o adestramento

Para quem não conhece esse meu lado: sou adestradora de cães. Não sou profissional, obviamente, mas uma amadora empolgada. Já ministrei seminários, tive blog sobre isso, comunidade no Orkut, fui moderadora de fórum de discussão. Deixei de lado o adestramento para fazer jus ao diploma e à OAB, e confesso que muitas vezes pensei em fazer o caminho inverso.

A palavra “adestramento” desperta na maior parte das pessoas a imagem de cachorros policiais pulando por arcos de fogo, ou de poodles de circo andando sobre as duas patas e usando tutus. Sim, isso é adestramento também. Mas não só, nem principalmente.

Isso é adestramento.

Quando falo em adestramento de animais, falo da tentativa de estabelecer com eles uma comunicação. E vou usar aqui o exemplo dos cães, porque é o mais comum, inclusive para mim, mas vale para qualquer tipo de bicho – e essa generalização é importante.

Numa concepção mais tradicional de adestramento, a comunicação é via de mão única: o adestrador, ou o dono, o “líder”, comunica ao cão o que espera dele, e espera obediência imediata. Há instruções expressas para não “ceder” ao cão, e referências às tentativas dos bichos de “tomar a liderança”.

Foi com essa concepção que me iniciei no adestramento, cheia de preocupação em sempre ganhar as brincadeiras de cabo-de-guerra, comer primeiro, e não deixar o cachorro passar por uma porta na minha frente.

Era uma tensão constante, o tempo todo esperando uma transgressão, aquele momento em que a minha linda Labrador amarela iria se transformar numa golpista subversiva, para então poder puni-la de acordo. Rolar com ela no chão? Brincar de pega-pega? Não, não, arriscado demais. O próximo passo seriam rosnados, mordidas e um cão impondo suas regras.

Claro que não aguentei isso muito tempo. Só o que queria era ter um cachorro minimamente comportado, não estava a fim de milhões de regras para evitar que ela virasse um monstro. Não parecia razoável, nem necessário. Então, fui pesquisar alternativas.

[AVISO: a partir daqui, esse post contém sinais de epifania. Não me levem a mal, há momentos em que é difícil ser cínica*.]

O que encontrei foram pessoas que viam a relação entre homem e animal como parceria, não como conflito. O adestramento como canal de mão dupla, em que as necessidades e interesses do animal são igualmente importantes. Problemas de comportamento resolvidos com soluções que buscavam aumentar o bem-estar do bicho, ao invés de simplesmente criar sistemas de punições.

E aí as coisas começaram a fazer mais sentido. Passei a prestar atenção aos cães, às expressões corporais, aos hábitos, às reações. Observei as relações entre eles, a interação com o ambiente e comigo. E fui enxergando algo muito mais complexo do que uma simples e constante disputa de poder.

Minha cadela não estava buscando me derrotar ou me desafiar: estava buscando seus próprios interesses. Se eu oferecia a ela formas de obtê-los, ela aceitava. E o adestramento, então, deixou de ser uma forma de impor minha vontade, e passou a ser uma busca pelo denominador comum entre meu interesse, e o dela.

Mas sim, isso é adestramento, também.

Os cães (e outros bichos não humanos) são o cúmulo da alteridade. Eles  andam sobre quatro patas, têm corpo peludo, confiam no olfato mais do que na visão. O mundo deles é diferente do nosso, e ainda assim é possível nos comunicarmos e nos relacionarmos. Basta tolerância, afeto, aceitação das diferenças, busca dos pontos comuns. Sim, eu sei, nada disso é novidade.

O que o adestramento me ensinou é que não há receita mágica, nem nada de novo sob o sol.

*vale lembrar que o significado original de “cinismo” é “à maneira dos cães”

Importa mesmo quem manda aqui?


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Cabelo branco

Certos eventos só fazem sentido retrospectivamente. Todo mundo tem algum caso pra contar sobre isso, sobre aquela pequena escolha, aquela ínfima coincidência, a chuva que mudou tudo.

Só hoje entendo a importância que teve o meu primeiro cabelo branco.

Foi num dia qualquer, uns 2 anos atrás. Estava no trabalho – no escritório onde fiquei por 5 anos, primeiro como estagiária, depois como advogada meio período. Era um lugar legal, meu chefe era um fofo, mas eu tinha a impressão de estar repetindo o Dia da Marmota a cada nova manhã.

No meio do meu tédio, nessa tarde qualquer, levantei para ir ao banheiro.

O escritório ficava numa região nobre de BH, e a vista da janela do banheiro era o por do sol atrás das montanhas, iluminando tudo de luz laranja. Entrei no banheiro e me olhei no espelho – a luz laranja me caía bem, gostava de me ver nela. Não me acho bonita, e é um prazer encontrar um ângulo, uma luz, um jeito que me façam mudar de ideia por um instante.

Estava perdida na egolatria até que vi algo brilhando no meio do meu cabelo. Num primeiro momento, duvidei – era só uma visão de relance, um reflexo. Mas olhei de novo, e estava lá o brilho fino, comprido, entremeado aos fios de cabelo.

Com receio, o coração ligeiramente acelerado, capturei-o com os dedos e olhei de perto. Parecia um cabelo branco. Um fio loiro, talvez? Uma ilusão de ótica? Olhei de novo, e era isso: branco. Branquinho. Arranquei. Enchi os olhos de água, e joguei no lixo.

Fiquei cabisbaixa. Contei o ocorrido para a secretária do escritório – a única pessoa lá com quem realmente conversava – que disse que cabelo branco “arranca um, nascem três”. Contei pra minha mãe, que me disse que isso era coisa da família do meu pai, porque ela só teve depois dos quarenta.

E eu ali, vinte e quatro anos de idade, e um cabelo branco indiscutível. Num trabalho que não me agradava, com um namorado que não me atendia, sem grana, sem liberdade, sem sonhos. E com um cabelo branco.

Naquele dia entendi que precisava viver logo, porque já estava começando a morrer. E saí da inércia, e rompi com o que me prendia, e voltei pra análise, e mudei pro Rio de Janeiro.

Meu cabelo branco foi o meu Rubicão.

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O Ano

O ano em que aprendi que realizar os desejos depende de aceitar os riscos de querer – inclusive o risco de se esborrachar de cara no chão.

O ano em que peguei meu medo de mudança, meti-lhe um direto de esquerda e deixei ali, na poeira. E mudei de emprego, de cidade, de estilo.

O ano em que comecei a namorar o amor da minha vida, que hoje mora comigo.

O ano em que deixei a 400km de distância pessoas que amo, e de quem sinto falta todos os dias.

O ano em que passei a pagar todas as minhas contas. E descobri que dou conta.

O ano em que aprendi a cozinhar.

O ano em que me envolvi na política, fiz campanha, torci, discuti.

O ano em que, mais uma vez, conheci muita gente legal, dentro e fora da internet, que hoje sai pra beber comigo.

O ano em que decidi vender o carro, e experimentar a vida de pedestre (mas continuo procurando comprador!)

Na prateleira dos anos vividos, taí: 2010 é A Montanha Mágica. Difícil de digerir, meio exasperante em alguns momentos, mas inesquecível. Termina com o pé direito: réveillon em Copacabana com bons amigos, e embarque para Brasília na manhã de sábado, para ver a posse da minha presidenta.

Bora lá, 2011 tá aí, e o prognóstico é bom.